
13/12/2016
Na vida pós-zika, trivialidades como escovar os dentes e beber um copo d´água se transformam em conquistas. São celebradas por pacientes adultos que contraíram encefalite e outras complicações neurológicas após a infecção. Agora, livres de encefalite, parte deles começa a apresentar síndromes neurológicas variadas. Alguns, jovens ainda, sofrem tremores como os característicos do mal de Parkinson. Outros, igualmente moços, demonstram perdas cognitivas típicas de demências. Perda de memória não é rara.
Estes pacientes se tornaram o centro das preocupações da equipe do médico e cientista Osvaldo Nascimento, professor titular de Neurologia e coordenador de pesquisa e pós-graduação em Neurologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascimento e seu grupo estão entre os pioneiros no Brasil na identificação da ligação entre o zika e a síndrome de Guillain-Barré e complicações como encefalites, encefalomielite disseminada aguda, meningoencefalite e encefalomielite. Agora, um ano após o atendimento dos primeiros casos, os mesmos médicos se deparam com outro desafio.
— Cerca de 40% dos pacientes que acompanhamos apresentaram síndromes neurológicas variadas depois de sofrer encefalomielite ou meningoencefalite. A infecção pelo vírus zika continua um grande mistério. Aprendemos muito em um ano, mas o desafio continua imenso. Não sabemos ainda que reações o vírus é capaz de produzir para afetar os pacientes dessa maneira — destaca Nascimento, um dos maiores especialistas do país em síndrome de Guillain-Barré e chefe do serviço de referência para a doença no Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.
Em 2016, cerca de 50 pacientes com Guillain-Barré e encefalites associadas ao vírus zika foram atendidos no serviço de neurologia do hospital. Destes, 20 apresentaram sintomas inesperados.
— Nossa amostra ainda é pequena, mas estamos preocupados e intrigados. É perturbador ver um adulto jovem ter sintomas semelhantes, por exemplo, aos da doença de Parkinson. Mas não se trata de Parkinson, e, sim, de uma síndrome neurológica distinta. O vírus zika parece permanecer no sistema nervoso como um terrível desafio — afirma o neurocientista.
Um dos pacientes atendidos por Nascimento é um jovem que contraíra encefalite ligada à zika. Ele teve alta, mas depois apresentou tremores intensos. Hoje se alegra com o abrandamento dos sintomas. Os tremores melhoraram após um novo tratamento, e o rapaz pôde voltar a comer, beber e escovar os dentes sem precisar de ajuda. Antes, os sintomas o impediam de controlar movimentos simples. Com a chegada das chuvas e do verão, Nascimento teme que mais gente seja encaminhada ao serviço.
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