
29/11/2016
Nenhum outro lugar do mundo está sendo tão afetado pelo aquecimento global quanto o Ártico, mas desta vez a situação surpreende até os mais pessimistas dos especialistas. De acordo com monitoramento do Instituto Meteorológico da Dinamarca, este mês as temperaturas na região ficaram até 20 graus Celsius acima da média registrada entre 1958 e 2002. E isto justamente na época do ano em que elas deviam desabar à medida que se aproxima o inverno e o Polo Norte mergulha na escuridão, em que o Sol não chega nem a nascer no horizonte durante meses.
E este forte aquecimento do Ártico já provocou ou pode levar a mudanças radicais no delicado ambiente da região, com consequências planetárias. O alerta foi dado nesta sexta-feira por um extenso relatório publicado pelo Instituto Ambiental de Estocolmo, Suécia, que identificou 19 destas alterações, classificadas como “pontos de inflexão”, que após ultrapassados serão praticamente irreversíveis, desencadeando efetivas “mudanças de regime” no ambiente ártico.
São fenômenos como o derretimento completo do gelo marinho durante o verão setentrional, o recuo das geleiras na Groenlândia, a migração de animais e vários tipos de vegetação como a tundra, as estepes e florestas boreais cada vez mais para o Norte, a erosão de regiões costeiras, o colapso de áreas de pesca e o derretimento do solo antes permanentemente congelado (permafrost), com a consequente liberação de metano, um pontente gás do efeito estufa, nele preso que vão afetar ou já atingem não só ecossistemas inteiros no Polo Norte como as populações locais que dependem de seus serviços, e que têm o potencial de retroalimentar uns aos outros, acelerando ainda mais sua ocorrência.
— Se múltiplas destas mudanças de regime reforçarem umas as outras, os resultados podem ser potencialmente catastróficos — resume Johan Rockström, diretor do Centro de Resiliência de Estocolmo e um dos líderes do projeto. — A variedade de efeitos que podemos observar significa que as populações do Ártico e as políticas (para a região) devem estar preparadas para surpresas. Também esperamos que algumas destas mudanças desestabilizem o clima regional e global, com impactos potencialmente grandes.
E, de fato, alguns destes fenômenos estão intimamente ligados. O exemplo mais claro disto é o avanço da vegetação, que ao substituir a neve e gelo, cuja brancura reflete mais a radiação solar que incide na região, acaba por contribuir para que ela fique mais quente, o que, por sua vez, abre ainda mais espaço para as próprias plantas. Por uma razão parecida, outro fator que torna o Ártico extremamente sensível ao aquecimento global é a perda da cobertura do gelo marinho, destaca Jefferson Cardia Simões, diretor científico do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A matéria pode ser lida em O Globo
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