
27/09/2016
Mergulhada em bruma e dominada pelo verde-escuro das árvores gigantes da Mata Atlântica em glória, a floresta nas redondezas do abandonado Hotel Simon, na chamada parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia (PNI), leva fama de assombrada. Deixados os fantasmas de homens em paz, vagam de fato por lá espíritos, mas de outro tipo. Reais, de carne, músculos e ossos. Onças reinam ali. Elas são senhoras de um dos últimos refúgios das florestas originais, uma ilha verde a meio caminho entre Rio e São Paulo, as duas maiores metrópoles do Brasil, a menos de 200 quilômetros das multidões do Centro carioca.
Difíceis de ver devido à natureza esquiva dos grandes predadores, as onças-pardas fazem sentir sua presença nas marcas deixadas nas árvores onde afiam as garras, em pegadas em trilhas. E, vez por outra, nos restos de suas presas. Quando a luz do dia esmorece e a noite cai, as onças parecem estar em toda parte. Embora em tese a hora das onças comece após o crepúsculo, elas parecem ignorar os livros de biologia. No dia 12, na calmaria de uma segunda-feira de fim de inverno, quando o movimento de turistas despenca, um dos guardas do parque foi surpreendido por volta do meio-dia. Deparou-se com uma onça que perseguia um furão para o almoço, perto da famosa cachoeira do Véu da Noiva. Passou como um raio e desapareceu na mata tão depressa quanto surgiu.
As onças tiveram o reinado comprovado por um estudo com armadilhas fotográficas. E não só na mata que pouco a pouco engole o velho hotel. Mas em todo o Parque Nacional do Itatiaia, afirma o autor do estudo, o biólogo Izar Aximoff, especialista em gestão da biodiversidade e um dos pesquisadores com maior número de boletins científicos sobre o parque.
Com autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ele teve apoio de campo do artista plástico e conservacionista Christian Spencer, voluntário do PNI e profundo conhecedor da região. Flagraram mais onças do que poderiam imaginar.
— Podemos dizer que este é o paraíso das onças no Estado do Rio. Para sabermos o tamanho exato da população delas aqui, porém, seria preciso fazer um estudo mais longo, com acompanhamento dos animais. Mas sabemos que são muitas, e isso é um sinal de vitalidade da Mata Atlântica na região — explica Aximoff.
A matéria pode ser lida em O Globo
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