
23/08/2016
O Parque Nacional da Serra da Capivara, considerado o mais importante sítio arqueológico do país, está em risco. Por falta de recursos, a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), até então responsável pela manutenção das vias de acesso e conservação das centenas de painéis com pinturas rupestres, anunciou o fim das atividades. De forma emergencial, a equipe de seguranças contratados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) teve o esquema de plantão alterado para manutenção de quatro dos 28 portões de acesso abertos aos visitantes. Mas os tesouros arqueológicos, que estão entre os mais antigos registros de ocupação humana das Américas, estão com sua existência ameaçada. A importância histórica e cultural do parque será ressaltada na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016, no próximo domingo.
— Nós estamos completamente sem recursos desde o mês de maio. Não dá mais — lamentou a fundadora e presidente da Fumdham, Niède Guidon, de 83 anos, informando que os últimos 30 funcionários, de um total de 270 que a fundação já teve, estão de aviso prévio e serão demitidos no fim do mês. — As pesquisas continuam, os laboratórios e o museu estão abertos, mas retiramos os funcionários das guaritas e da conservação das estradas e dos sítios arqueológicos no parque.
Criado em 1979, o Parque Nacional da Serra da Capivara abrange uma área de 129.140 hectares, no sertão do Piauí. Em 1991, a reserva foi listada como Patrimônio Mundial pela Unesco. Já foram descobertos quase mil sítios arqueológicos, sendo que 172 deles estão preparados para a recepção de visitantes. Apesar de controversos, estudos com datação por radiocarbono apontam indícios da presença humana no continente, como instrumentos de pedra lascada, há 60 mil anos, o que coloca em xeque a teoria de povoamento das Américas pelo Estreito de Bering.
Além dos artefatos humanos, como pinturas, ferramentas e restos mortais, a região também é rica em vestígios arqueológicos de fauna e flora. No passado, o parque abrigava densa vegetação como a atual Mata Atlântica. Escavações já descobriram fósseis de preguiças gigantes, mastodontes e tigres-dentes-de-sabre, entre outras espécies já extintas. Hoje, a vegetação de caatinga predomina, e os visitantes podem se deslumbrar com o avistamento de tatus, tamanduás, veados e mocós, além de centenas de outras espécies animais.
Mesmo com tantos atrativos, o turismo ainda engatinha, apesar de ser fonte de renda importante para um grande número de moradores das cidades de São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, Canto do Buriti e São João do Piauí. O maior gargalo é o acesso. O aeroporto de grande porte mais próximo fica em Petrolina, em Pernambuco, a 300 quilômetros de distância, sendo um grande trecho em estrada de terra. No ano passado, após 12 anos de construção, foi inaugurado o Aeroporto Internacional da Serra da Capivara, mas a pista não comporta aviões de grande porte. Apenas em junho último uma linha começou a ser operada, ligando São Raimundo Nonato à capital piauiense, Teresina, duas vezes por semana, em uma pequena aeronave com espaço para nove passageiros.
A matéria pode ser lida em O Globo
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