
19/07/2016
Maior floresta tropical do mundo, a Amazônia impressiona não só por sua exuberância, mas também pelo gigantismo de seus números. Cobrindo uma área de cerca de sete milhões de quilômetros quadrados — aproximadamente 60% dos quais em território brasileiro —, o bioma abriga 2,5 milhões de tipos de insetos, dezenas de milhares de espécies de plantas e mais de dois mil animais, entre peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, com, acredita-se, muitas outras milhares ainda desconhecidas da ciência. E agora mais um número se junta a esta lista. Em um levantamento inédito, pesquisadores verificaram que a Amazônia é lar de quase 12 mil espécies de árvores, mais do que em qualquer outro lugar da Terra, em nova demonstração da pujança de sua biodiversidade.
No estudo, publicado ontem no periódico científico de acesso aberto “Scientific Reports”, os cientistas liderados por Hans ter Steege, do Centro Naturalis de Biodiversidade, na Holanda, analisaram arquivos digitalizados com imagens e dados de mais de 530 mil amostras de árvores — definidas como plantas cujo tronco atinge o diâmetro mínimo de 10 centímetros na altura do peito (1,3 metro do chão) — recolhidas na Amazônia entre 1707 e 2015 espalhadas em dezenas de museus, herbários e instituições de pesquisa do planeta. Com isso, eles identificaram 11.676 espécies diferentes nestas coleções.
O resultado do levantamento foi considerado pelos pesquisadores como em linha com estimativa feita por estudo anterior liderado pelo próprio Steege, publicado em outubro de 2013 na prestigiada revista científica “Science”, que apontou que a Amazônia teria aproximadamente 16 mil espécies de árvores em uma população total que chegaria a 390 bilhões de plantas do tipo. Isso significa que ainda falta à ciência descobrir cerca de quatro mil das mais raras espécies de árvores do bioma. É um trabalho tão grande e difícil que, de acordo com avaliação dos próprios autores do novo inventário, seriam necessários pelo menos mais 300 anos para ser completado, desde que sejam feitas expedições frequentes no bioma.
— É o equivalente a procurar por uma agulha num palheiro — compara Rafael Paiva Salomão, pesquisador da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi e coautor de ambos estudos. — Estas quatro mil espécies que faltam são muito raras e serão bem difíceis de serem achadas. Além disso, as dificuldades para se trabalhar na Amazônia são muito grandes. A floresta é muito densa, o que vai exigir expedições regulares e trabalhosas. E para isso são necessários recursos, que também estão em falta.
Segundo os pesquisadores, as cerca de quatro mil espécies de árvores ainda desconhecidas da Amazônia têm uma abundância estimada em igual ou menos de um milhão de exemplares em toda floresta, sendo que algumas não atingiriam o número de mil plantas no total. Diante disso, eles calculam que as chances de uma amostra de alguma árvore no topo deste nível de ocorrência ser coletada ao acaso em 2,5 por milhão. Já para as espécies cuja ocorrência não passa de mil exemplares entre as centenas de bilhões de árvores da Amazônia, esta probabilidade cairia para apenas 2,5 a cada bilhão. Ainda assim, os autores do estudo destacam que, se suas estimativas estiverem corretas, quase sete mil espécies de árvores cuja abundância também não passa de um milhão na floresta já foram descobertas e descritas nos últimos três séculos, uma estatística bem mais animadora para o trabalho futuro.
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