
19/07/2016
Em boa parte do mundo, a vida na prisão é marcada por um cotidiano de violência e abusos, má alimentação e higiene que tem entre seus principais fatores a superpopulação, agravada nas últimas décadas pela política de “guerra às drogas” que levou ao encarceramento de milhões de pessoas. Mas, além disso tudo, os detentos ainda enfrentam ameaças microscópicas que colocam em risco não só sua saúde como a das comunidades de onde saíram. Circulando livremente entre as celas, micro-organismos como o HIV, causador da Aids, o bacilo da tuberculose e os vírus das hepatites tipo B e C atingem em cheio a população carcerária global, que apresenta uma taxa de prevalência destas doenças muito superior à observada na população em geral, num problema que não fica confinado atrás das grades, alerta uma série de estudos publicada ontem na prestigiada revista médica “The Lancet”.
— É importante lembrar que as pessoas na prisão vêm e voltam para suas comunidades — destaca Chris Beyrer, professor de Saúde Pública e Direitos Humanos da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, EUA, e editor especial convidado da série de estudos da “Lancet”. — Nunca há uma separação total, de verdade, entre as populações carcerária e geral e a falta de cuidado com a primeira acaba afetando a saúde da segunda.
Segundo os pesquisadores, das estimadas 10,2 milhões de pessoas que estavam presas ao redor do mundo em qualquer dia de 2014, 389 mil, ou 3,8%, viviam com o HIV; mais de 1,5 milhão, ou 15,1%, estavam com hepatite C; 491 mil, ou 4,8%, tinham infecção crônica por hepatite B; e 286 mil, ou 2,8%, sofriam com tuberculose ativa. No caso do HIV, esta taxa de prevalência, equivalente a 3.813,7 infectados para cada 100 mil presos, é quase cinco vezes maior que a vista na população mundial. Já no da tuberculose esta diferença é ainda maior, passando de 21 vezes.
Cenário que se repete no Brasil. De acordo com a última edição do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), divulgado pelo Ministério da Justiça, em junho do mesmo ano de 2014 ao menos 2.864 presos do país conviviam com o HIV, enquanto 2.217 estavam doentes de tuberculose, números que indicam prevalências respectivamente 3,17 vezes e 18,09 vezes maiores que as observadas na população em geral. Mas a situação brasileira, embora pareça pouco melhor que a média mundial, provavelmente é muito mais desoladora, já que o relatório não inclui dados sobre as doenças que afetam os internos nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, duas das maiores populações carcerárias do país.
Beyrer conta que, diferentemente do que se imagina, a transmissão destas doenças entre os detentos, embora aconteça, não chega a ser um grande problema na maior parte do mundo, sendo mais frequente no caso da hepatite C, via tatuagens, e da tuberculose, divido às más condições sanitárias das penitenciárias. Mas enquanto dentro da prisão, em especial nos países ricos e em desenvolvimento, os doentes recebem tratamento e acompanhamento frequentes, uma vez na rua estes cuidados desaparecem, colocando em risco a saúde tanto do agora ex-presidiário quanto das pessoas em sua volta.
A matéria completa pode ser lida em O Globo
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