
05/05/2016
Quando a noite chega, cobre as ruínas de escuridão. Só não esconde a feiura da desolação. Ali, em Paracatu de Baixo, um dos distritos rurais de Mariana devastados pelo maior desastre ambiental da História do Brasil, a noite é feia, diz Antônio Geraldo de Oliveira, o Seu Nié. Ele é um dos três moradores de Paracatu que decidiu voltar após a lama secar. Vive só em meio aos escombros, sejam os das casas de amigos e parentes, sejam os da saudade da terra que não existe mais.
— A noite dá medo. Mas não é de assombração. Quem vai querer assombrar isso aqui? Essa terra está morta. Ninguém assombra os mortos. A noite é feia porque nem ruído de bicho tem. Não tem luz, não tem som. Não tem mais nada — lamenta Seu Nié, de 63 anos, que nasceu e morou em Paracatu de Baixo por toda a vida.
A lama endureceu e petrificou o tempo. Nas áreas mais atingidas, como Paracatu, ele parou na tragédia de 5 de novembro de 2015, que completa seis meses na quinta-feira. Naquele dia, a Barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, rompeu e despejou mais de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Varreu vales de Minas Gerais, atravessou o Espírito Santo, poluiu o Rio Doce e, por fim, o Atlântico, a 650 quilômetros de distância. A tsunami de dejetos matou 19 pessoas.
Onipresente, aprisionou a paisagem devastada do distrito. A zona destruída de Paracatu de Baixo espera que estudos previstos no Termo de Transação e Ajuste de Conduta assinado pela Samarco e os governos mineiro e capixaba determinem o seu destino. O nome indígena tupi “rio bom” (de “para”, rio e “katu”, bom) soa como ironia. O amontoado de destroços está como deixado pela onda de restos de minério, no curso do Gualaxo do Norte.
Reveja a cronologia dos fatos em O Globo
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