
12/04/2016
Tempos de mudança desequilibram o quinhão do Brasil onde o mandacaru cresce à beira dos cafezais e cachoeiras fazem oásis na Caatinga. Os sinais de fumaça chegaram com força no fim de 2015 com um dos piores incêndios da História na Chapada Diamantina. Alimentado por um El Niño recorde, o fogo avançou por 2016 e só foi extinto no fim de janeiro. A Chapada é conhecida como a Caixa D’Água da Bahia. Lá nascem 80% dos rios do estado, entre eles, o Paraguaçu. Este abastece três milhões de pessoas, fornece 60% da água de Salvador. Toda essa água corre risco e escasseia, à medida que se concretizam previsões sobre o impacto das mudanças climáticas na região. Para salvar as nascentes, pesquisadores e ambientalistas realizam um trabalho inédito de restauração de matas. Tentam semear água no sertão.
Seco até no nome, o Semiárido está entre as regiões mais vulneráveis do Brasil a mudanças no clima, segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O que já é naturalmente seco fica mais árido à medida que a temperatura global aumenta. Mas na Chapada Diamantina pesquisadores observam um cenário dramático, com a destruição de ecossistemas que promovem a abundância de água em pleno sertão. São sinais do Antropoceno, a era em que o homem se tornou uma força transformadora da natureza.
O relevo de serras e planaltos criou um microclima único, capaz de congregar Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga. Juntos e misturados. O resultado é uma esponja natural de tamanho colossal, de 38 mil quilômetros quadrados, numa altitude média de 800 a mil metros acima do nível do mar. Tanta água sustenta uma área estratégica para a biodiversidade. E irriga um agropolo de onde sai o café de Piatã, entre os melhores do Brasil. Sem a água dos rios que nascem na Chapada, porém, natureza e economia perecerão.
O geógrafo Rogério Mucugê Miranda, coordenador de projetos da Conservação Internacional (CI-Brasil), explica que a maior ameaçada é a intensificação do fogo. Apagá-lo muitas vezes é impossível. Ele chega aonde o homem não alcança, fendas e escarpas íngremes inacessíveis a bombeiros e voluntários, como os da Brigada Bicho do Mato, que participa de ações de combate de focos e replantio.
— O fogo sempre fez parte da vida na Chapada Diamantina. É importante para algumas espécies do Cerrado. O problema é que a intensificação e prolongamento do período seco tornam o fogo incontrolável. Ele destrói a vegetação que protege as nascentes. E, com isso, elas secam — explica Mucugê, que tem a chapada até no nome, pois é xará do município no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina.
Mucugê coordena o projeto da CI Semeando Águas no Paraguaçu, que já recuperou cerca de 70 hectares de matas protetoras de nascentes, outros nove hectares se perderam nos últimos incêndios.
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