
05/04/2016
A queima de combustíveis fósseis tem consequências que vão além do aumento do efeito estufa. Se o excesso de CO2 permanece em parte na atmosfera, elevando as temperaturas no planeta, outra parte é absorvida pelos oceanos. Em contato com a água, ele reage e forma ácido carbônico, o que, por sua vez, provoca uma série de novas reações químicas, reduzindo o pH natural da água. Embora essas alterações não sejam homogêneas, variando de um ponto a outro no oceano, as consequências são mais ou menos as mesmas: pouco a pouco, essa alteração no pH das águas marinhas as torna mais ácidas. É a chamada acidificação dos oceanos.
São efeitos que vêm sendo estudados desde 2012 pela equipe de Oceanografia Química da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), integrante do BrOA, grupo de pesquisa multidisciplinar que reúne diversas instituições brasileiras. “Procuramos compreender como a concentração das formas de carbono inorgânico dissolvido impacta os diversos ecossistemas marinhos brasileiros, e assim entender melhor os processos biogeoquímicos e a influência antropogênica nas trocas de CO2 entre o mar e a atmosfera nos ambientes costeiros fluminenses”, explica Letícia Cotrim da Cunha, oceanógrafa e professora da universidade, cujo projeto contou com recursos do Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1). Em maio, será a vez da equipe da Uerj receber um grupo de pesquisadores alemães do Instituto Helmoltz de Pesquisa Marinha – Geomar, instituição de referência em química do mar, sediado na cidade de Kiel, na Alemanha.
“Caso as emissões de CO2 fossem paralisadas hoje, ainda assim seriam necessários cerca de 10 mil anos para tudo se recuperar, ou seja, para voltarmos às condições pré-Revolução Industrial. Mas o que tem acontecido, ao contrário, é que as emissões, ano a ano, vêm tendo aumentos pequenos mas constantes”, alerta a pesquisadora. As consequências para a vida marinha são óbvias. “Se o pH da água é reduzido, certos organismos, com estruturas constituídas à base de carbonato de cálcio, como algas calcárias, corais e animais com conchas, como os bivalves, são os primeiros prejudicados: crescem menos e mais lentamente, podem apresentar dificuldade na reprodução e, em casos mais acentuados, sofrer dissolução de parte de sua estrutura calcária”, explica. O que também quer dizer que o cultivo comercial de mariscos, ostras e mexilhões é diretamente prejudicado, uma vez que, em águas acidificadas, esses organismos não se desenvolvem o suficiente para chegar à fase adulta. Quanto mais a situação se acentua, mais a vida marinha sofre prejuízos.
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