
29/03/2016
A imagem impressiona: crianças e adultos disputando com centenas de urubus toneladas de lixo depositadas freneticamente por caminhões. Numa espécie de caça ao tesouro, eles passam o dia revirando resíduos orgânicos, restos de construções, ferros e galhos de árvores. Pilhas de plásticos, brinquedos e móveis estão por toda parte numa área de cerca de 40 mil metros quadrados, equivalente a aproximadamente cinco campos de futebol.
O contraste choca porque o lixão fica escondido numa clareira aberta no Parque Estadual da Costa do Sol, um dos mais belos recantos do litoral do Rio: a Praia Grande, no município de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, a cerca de 160 quilômetros do Centro do Rio. Por lei, desde 2014, os lixões estão proibidos no país.
O depósito clandestino é uma ameaça à Reserva Extrativista Marinha (ResEx) de Arraial do Cabo, criada por decreto presidencial em janeiro de 1997 e que cobre 56.769 hectares do litoral da cidade. Uma das 16 unidades de conservação federal no Estado do Rio, a reserva é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O lixão também coloca em risco a Área de Proteção Ambiental (APA) de Massambaba e um sítio arqueológico reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
- Há risco, sim, à reserva extrativista. O chorume de lixões são fontes de contaminação do lençol freático. Vamos apurar o caso. Desconheço, no momento, se alguma providência já foi tomada pela chefia da unidade local, mas pode haver impacto. Vamos enviar uma equipe de fiscalização ao local - afirmou a engenheira agrônoma Andréa da Nóbrega Ribeiro, coordenadora regional do ICMBio.
No lixão, a equipe do GLOBO flagrou funcionários de uma empresa contratada pela prefeitura de Arraial do Cabo para fazer a coleta domiciliar do município despejando lixo. Carroceiros e pequenos caminhões também usam o terreno para vazar, na maioria das vezes, entulho. Ao redor da grande montanha de lixo, há ainda outros pontos onde é despejado material de obras.
- São os próprios caminhões da prefeitura de Arraial que jogam lixo aqui no lixão e em todo o parque. Tem dia que é tanta sujeira que é impossível passar - disse um catador de lixo, apontando para o mar da Praia Grande, a cerca de 600 metros do local.
A equipe do GLOBO chegou ao lixão seguindo caminhões que faziam a coleta de lixo no Centro de Arraial do Cabo. Pelo menos dois ocupantes de um dos veículos usavam uniformes da prefeitura. Procurada, a assessoria de imprensa do prefeito Wanderson Cardoso de Brito (PMDB), o Andinho, não deu retorno para comentar o assunto.
- Eu trabalho para a prefeitura. Sou contratado por ela para passar o trator no terreno - disse o homem que conduzia a retroescavadeira que estava no lixão na última quinta-feira.
A matéria completa pode ser lida em O Globo
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