
25/02/2016
Poucas coisas inspiram tanto medo na floresta quanto o uivo de um lobo. Soa como um alarme para que alces, veados e bisões busquem refúgio. E sua presença é mesmo imprescindível para garantir a integridade do ecossistema, segundo um estudo publicado ontem na revista “Nature Communications”. Nele, pesquisadores da Universidade de Ontário Ocidental, no Canadá, mostram como o medo despertado por estas espécies inibe a devastação causada por suas presas à vegetação e ao mar, impedindo o desequilíbrio da cadeia alimentar.
Os autores da pesquisa perceberam como a caça promovida pelos guaxinins está contribuindo para o sumiço de aves canoras, caranguejos e algumas espécies de peixes nas ilhas da Colúmbia Britânica, no Canadá. Seu comportamento atrevido é motivado pela ausência de grandes carnívoros, já que lobos e pumas foram dizimados na região há mais de 70 anos.
Para inibir os guaxinins, os cientistas espalharam pelas ilhas alto-falantes com o som dos antigos predadores — alguns comuns, outros raivosos. Foi o suficiente para que os “soberanos” locais diminuíssem significativamente o seu tempo de caça e passeio a céu aberto. O medo repercutiu no ecossistema. As populações de peixes, agora menos perseguidas, voltaram a crescer.
— Os seres humanos aniquilaram grandes carnívoros em parte do planeta, levando a consequências ecológicas que somente agora começamos a entender — destaca Justin Suraci, pesquisador canadense e coautor do estudo. — Observamos surtos populacionais de herbívoros como veados e alces e predadores menores, como coiotes e guaxinins. Estas espécies diminuem significativamente a diversidade e abundância das plantas e animais que consomem, porque não existe mais aquela criatura maior que os mantinha sob controle.
Suraci revela que a inspiração para sua pesquisa veio de um projeto de reintrodução de lobos no parque americano de Yellowstone, em 1995. Os resultados do experimento foram documentados no vídeo “How wolves change rivers” (“Como os lobos mudam rios”, em tradução livre), que conta com mais de 22 milhões de visualizações no YouTube. Ao perceber o estado miserável dos campos da região, a baixa estatura da floresta e o desaparecimento de diversas espécies, os administradores da unidade de conservação enviaram matilhas de lobos para conter a ampla população de alces. Estes herbívoros passaram a evitar locais onde estariam mais expostos, como os vales, possibilitando a regeneração destas áreas. Em alguns trechos, o tamanho das árvores quintuplicou em apenas seis anos, atraindo aves e castores, famosos por criar “represas” em rios, que se transformam em habitat para outros animais, como os patos e diversos anfíbios e répteis. Os ursos apareceram para aproveitarem a carne dos coiotes mortos por lobos. Livres dos antigos predadores, coelhos e ratos saíram da toca, chamando a atenção de águias e raposas.
A matéria completa pode ser lida em O Globo
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