
14/01/2016
O zika é minúsculo, de simplicidade espartana e nem por isso um inimigo menos brutal. Mas pistas que prometem ajudar a controlá-lo chegam de laboratórios do Rio de Janeiro. Surgem do sequenciamento genético do zika que circula no Brasil. A análise, feita pelo Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, aumenta a suspeita de que a epidemia se propaga depressa impulsionada também por outro meio que não só o Aedes aegypti, embora o mosquito seja indiscutivelmente o maior transmissor. E reforça a tese de que ele poderia afetar o organismo humano associado a outros fatores, como vírus diferentes.
Na quarta-feira, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, defendeu o engajamento da população na eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti, que transmite o vírus zika. O ministro disse que essa é a única forma de evitar uma "geração de sequelados no Brasil".
O trabalho imprescindível para combater a epidemia foi realizado pelo grupo de Amílcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, um dos mais respeitados do país em genética viral. Tanuri sequenciou, isto é, analisou o genoma de vírus zika extraídos do líquido amniótico de dois fetos em gestação em Joazeirinho, na Paraíba. Um trabalho em parceria com Adriana Melo, diretora do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto, em Campina Grande, na Paraíba; e Ana Bispo, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), no Rio.
O sequenciamento genético, importante para compreender a doença, revelou que a linhagem do zika no país parece igual à que causou epidemia na Polinésia Francesa, em 2013.
— O zika é 54% idêntico ao vírus da dengue e tem 80% de similaridade de proteínas — afirma Tanuri.
Isso significa que é muito difícil identificar as particularidades que o tornam tão perigoso. E aumenta o mistério de o zika se propagar muito mais depressa do que a dengue.
— Levada pela asas do Aedes, a dengue 4 levou cerca de três anos para se disseminar pelo Brasil. Desde maio de 2015, quando os primeiros casos de zika foram registrados na Bahia, o vírus se espalhou para 19 estados. O Aedes é seguramente um vetor. Mas será o único meio de transmissão? — destaca Tanuri.
Estudos menores, no exterior, indicaram que o vírus presente não só no sangue, mas na urina, no sêmen e no leite materno, poderia ser passado de uma pessoa para outra por meio de fluidos corporais. Para Tanuri, o contágio pessoal deve ser investigado com maior atenção. Cientistas experientes, como Tanuri, não estão convencidos de que o zika seja a única causa de microcefalia e outras complicações.
Saiba mais em O Globo
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