
08/12/2015
Se o diabo existe, tem asas. E chupa sangue. Trocou o chifre por antenas. Enquanto você almoça, ele o suga sob a mesa. Quando chega em casa do trabalho, ele está à espera, para lhe tirar o sangue e, em troca, infectá-lo com vírus nocivos. As fêmeas, sempre famintas, não dispensam uma refeição. O ser humano é a presa favorita deste vampiro crepuscular. A epidemia de zika só veio evidenciar, para quem ainda tinha dúvidas, que o Aedes aegypti é um predador de gente. Ele transmite zika, dengue, febre amarela, chicungunha. Mas não para aí. É uma máquina de disseminação de vírus. Na Amazônia brasileira, é o vetor dos vírus de oropouche, mayaro e encefalite equina, por exemplo. Pelo mundo, carrega a febre do Oeste do Nilo, as encefalites japonesa, do Vale Murray, de St. Louis e de La Crosse, além de dezenas de outras doenças provocadas por arbovírus.
Poucas espécies têm nome tão adequado quanto o Aedes, que vem do grego e significa odioso. Uma referência a sua capacidade de propagar doenças. Estima-se que é o transmissor de muitos dos cerca de 150 tipos de arbovírus causadores de infecção em seres humanos, diz o professor de virologia e vice-diretor do Instituto de Microbiologia da UFRJ, Davis Fernandes Ferreira.
— Aedes têm sido relacionados à transmissão de grande parte destes vírus, seja na natureza ou em laboratórios. E somos um alvo fácil para o mosquito se alimentar — explica Ferreira, que investiga formas de tratar essas doenças e aperfeiçoar a vigilância sanitária em seu laboratório.
Há ao menos 530 tipos de arbovírus, uma denominação de vírus transmitidos por artrópodes, como os mosquitos. O Aedes é o transmissor de três famílias: Alphavirus, Flavivirus e Bunyavirus. Algumas vezes, ele não é o único transmissor, mas sempre ganha importância porque, diferentemente de outros mosquitos, está adaptado à vida urbana.
— As infecções podem atingir vários órgãos, como a dengue, mas esses micro-organismos também provocam encefalite, febre hemorrágica, hepatite e dores nas articulações — observa Ferreira.
As arboviroses desafiam a ciência. Em sua maioria, são raras. Causam surtos e desaparecem por anos, sem deixar rastro. Porém, como vírus estão em constante mutação, podem, de uma hora para outra, se tornar agressivos ou capazes de provocar epidemias. Levados pelo mosquito, se espalham por grandes populações. Foi o que aconteceu com a febre amarela no passado e com a dengue hoje. O zika não era considerado perigoso e, por isso, não recebia atenção. Cientistas supõem que ele pode ter chegado aqui com a Jornada da Juventude ou a Copa do Mundo, pois eventos internacionais são disseminadores de vírus. Chegou despercebido, uma vez que a maioria dos casos é assintomático. O Aedes é um bicho tão ruim que pode transmitir dois tipos de vírus ao mesmo tempo, para pessoas desafortunadas o suficiente.
A matéria completa pode ser lida em O Globo
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