
08/12/2015
Começou bem. Chefes de Estado chegaram à Conferência do Clima (COP-21) com metas voluntárias a tiracolo e considerando adotá-las com peso de lei. Nos últimos dias — e assim será até o fim da cúpula, na próxima sexta-feira —, a animação e a dinâmica iniciais dão lugar a uma trajetória lenta e truncada, a mesma que limitou todos os documentos já assinados até hoje contra o aquecimento global e que pode contaminar o Acordo de Paris.
Instruídos pelos governantes, os negociadores tentam eliminar as centenas de pontos ainda não consensuais do rascunho do acordo. Não há discussão no plenário — os representantes de cada país apenas dizem se são favoráveis ou não a determinada medida. O debate acontece dentro de blocos com demandas semelhantes, em comissões multilaterais e, principalmente, em cafezinhos.
— Participei de duas conferências e vi como as conversas acontecem nos corredores, cafés, bares, restaurantes. Isso faz parte da negociação — lembra José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. — Algumas vezes, eles pegam o telefone para consultar alguém, não sei se ali mesmo ou seus governos.
— Quando se vai para o plenário sem acordo prévio, aí é que não há avanço mesmo — lamenta Suzana Kahn, coordenadora executiva do Fundo Verde e presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro para Mudanças Climáticas. — Os chefes de Estado foram embora e acho que levaram junto a esperança de um acordo robusto. Agora, com os negociadores, entramos no mundo real, com os obstáculos que existem há seis anos.
Um dos itens mais importantes e controversos da COP-21 é o financiamento. China e EUA são protagonistas na disputa sobre os futuros doadores e privilegiados por um fundo que deve receber US$ 100 bilhões por ano. Os países desenvolvidos se recusam a pagar a conta sozinhos. As nações mais vulneráveis ainda reivindicam uma verba emergencial para adaptação às mudanças climáticas. Esta ferramenta, conhecida como perdas e danos, corre o risco de ser totalmente ignorada pelos negociadores.
Também não há acordo sobre quando os países devem zerar a emissão de combustíveis fósseis. Existem planos para que esta medida ocorra em meados do século ou mesmo em 2100, o que inviabiliza a missão de impedir que a temperatura do planeta avance mais do que 2 graus Celsius.
Os países tampouco chegam a um consenso sobre como e para quem revelarão seu progresso no cumprimento de metas. E, principalmente, reagem a qualquer monitoramento estrangeiro, alegando que esta regra afetaria a soberania nacional.
Outro impasse vem da floresta. Há dois anos foi aprovado um plano para remunerar os países que conseguissem reduzir as emissões causadas por desmatamento. Até agora, porém, esta medida não gerou fluxos financeiros. Espera-se que o Acordo de Paris finalmente assegure apoio a este projeto.
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