
27/08/2015
Na última sexta-feira, o governo divulgou o tamanho consolidado da área de desmatamento na Amazônia no período 2013-2014: foram 5.012 km². O número é ligeiramente maior do que a taxa preliminar anunciada no fim do ano passado, 4.848 km², mas foi motivo de comemoração por parte da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que tem agora no currículo as três menores taxas de desmate que o Brasil já registrou desde que a floresta começou a ser vigiada por satélite, em 1989. É uma notícia boa em comparação ao passado, mas quando essas taxas se traduzem em emissões de CO2, porém, é difícil ainda enxergar um cenário otimista.
Mesmo tendo caído 82% nos últimos dez anos, o desmatamento segue como o maior fator de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Uma área de 5.000 km², é bom lembrar, é mais que o triplo do município de São Paulo. A biomassa das árvores destruídas no território do país tem lançado ao ar algo em torno de 500 milhões de toneladas de CO2 por ano, mais gás carbônico do que toda a frota de veículos do país e todas as usinas termelétricas emitem juntos. Numa comparação com emissões rurais, o desmate da Amazônia contribui para o aquecimento global mais do que todo o rebanho de 200 milhões de cabeças de gado emite com seu metano, um gás-estufa poderoso, somado a todas as emissões da produção agrícola.
É comum, entretanto, conversar com técnicos do governo e escutar a afirmação de que as emissões do desmatamento já são menores do que as de energia e as da agropecuária. Como, então, se faz essa conta?
O mistério por trás do cálculo das emissões de desmatamento é que, ao apresentar os resultados, o governo abate do valor total o CO2 que está sendo absorvido por florestas em crescimento. No linguajar da Convenção do Clima da ONU, países registram seus desmatamentos sob a rubrica eufemística "mudanças de uso da terra", porque florestas em crescimento são contabilizadas como emissões negativas de carbono, ou absorções.
Isso não está necessariamente errado. É importante reconhecer o mérito de países que estão investindo em reflorestamento, pois o carbono que constitui uma árvore é essencialmente o "C" do CO2 que a planta absorve do ar. É carbono que estaria na atmosfera, se não estivesse nas árvores. Que florestas, então, o Brasil está replantando para justificar a entrada de emissões negativas em seu inventário? É aí que a porca torce o rabo.
O IPCC (painel do clima da ONU) determina que só podem ser abatidas dos números totais de emissões de um país as "remoções antrópicas" de gases-estufa, ou seja, as absorções de CO2 que ocorrem por meio de alguma ação humana.
A crônica na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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