
05/02/2015
Diante de uma crise energética para a qual o governo ainda estuda soluções, especialistas afirmam que informações defasadas sobre a capacidade do sistema elétrico nacional e modelos desatualizados para avaliar a oferta e demanda de energia no país dificultam o conhecimento sobre o tamanho exato do problema. A crise, alertam, pode ser até mais grave do que parece. Segundo analistas, o governo e o próprio mercado desconhecem o volume exato de água que as hidrelétricas brasileiras usam para gerar energia. Além disso, o consumo de eletricidade no país avançou menos do que o previsto, e as chuvas foram de 87% da média histórica nos últimos três anos, o que contrasta com o argumento do governo de que a seca é a principal vilã da crise.
Segundo Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ e ex-presidente da Eletrobras, o país só tem água armazenada nos reservatórios do Sudeste para um mês de geração de energia, um patamar mais baixo do que antes do racionamento de 2001. Os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste estavam em 16,78%.
— Acredito que não teremos como escapar do racionamento — disse.
Não é conhecida, no entanto, a medida exata da capacidade de produção das hidrelétricas — essas “velhas senhoras”, como a presidente Dilma Rousseff já se referiu a essas usinas, que chegam a ter mais de 70 anos. Segundo especialistas, a decisão do Ministério de Minas e Energia (MME) de prorrogar de 2015 para 2016 a revisão de garantias físicas das hidrelétricas — a quantidade máxima de energia que as usinas podem comercializar — contribui para que não se saiba o volume exato de água que as hidrelétricas consomem para gerar energia, nem sua capacidade real de produção.
A revisão das garantias deveria ter sido feita há mais de dez anos. Na prática, essa checagem funciona como uma atualização das condições reais de produtividade das usinas. Os parâmetros para o cálculo, definidos pelo MME, incluem a data de construção, o número de turbinas e a vazão do rio, entre outros fatores.
Sem essa checagem, o governo imagina operar uma usina “zero quilômetro” quando, na prática, ela pode estar consumindo mais água para gerar energia. A falta dessa revisão torna mais crítico o controle da vazão dos reservatórios, especialmente num momento de falta de chuvas e em que o risco de déficit de energia é mais alto.
Um especialista no setor elétrico avalia que as distorções podem estar prejudicando o controle dos reservatórios pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Segundo esta fonte, as geradoras estão familiarizadas com a situação, mas preferem não se expor ao risco de perda de receita com uma eventual revisão para baixo da garantia física das usinas. Em 2001, uma revisão feita para a hidrelétrica de Itaipu, por exemplo, levou a uma redução significativa de sua receita.
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