
03/02/2015
Pense em uma pessoa contratada para entregar pizzas durante seis horas por dia. Para prestar o serviço, levando em conta o salário e a jornada, ela compra uma bicicleta. Algum tempo depois, com a mesma bicicleta e o mesmo salário, essa pessoa passa a entregar as refeições 24 horas por dia. E ainda tem de pagar pela pizza que, eventualmente, não consegue levar até o destino final. A história fictícia remete a uma situação bem real nas usinas termelétricas do Brasil. Contratadas pelo governo para operar, em média, quatro meses por ano, estão há um ano e meio ligadas ininterruptamente.
Como ocorreria no caso do entregador de pizza, essas usinas - movidas a gás natural, carvão, diesel ou demais combustíveis - têm sofrido com a fadiga. E o trabalho excessivo não permite gerar a energia esperada pelo governo todos os dias para fazer frente à falta de água nos reservatórios das hidrelétricas.
Segundo levantamento feito pela Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget) a pedido do GLOBO com dados oficiais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o percentual médio das usinas paradas, em manutenção, saltou no segundo semestre do ano passado. Se em 2013 esse índice oscilou entre 2% e 5%, em 2014 essa parcela variou entre 4% e 11% - o pico foi registrado em setembro, quando seis usinas pararam. Segundo a Abraget, o padrão mundial considerado tolerável é de 5%. Este limite foi alcançado em agosto e superado nos dois meses seguintes.
Nos 12 meses encerrados em novembro do ano passado, as termelétricas responderam por 22% da energia produzida no Sistema Interligado Nacional (SIN) - mais que o dobro dos 10% no mesmo período de 2012, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Essas usinas, hoje, geram um recorde de 17 mil MW por dia, diante de uma capacidade total de 21,6 mil MW no SIN. O trabalho intensificado significa mais manutenções.
- Hoje, quem está suportando o sistema interligado são as termelétricas. É uma quantidade considerável, em sua maioria em gás natural. Quando ficam muito tempo em uso contínuo, aumenta-se a necessidade de manutenção em relação ao previsto na época do leilão. Você precisa fazer mais manutenções e tem penalizações indevidas para os períodos de parada não programada, porque tem de comprar a energia não gerada no preço spot (do mercado de curto prazo) - explicou o presidente da Abraget, Xisto Vieira Filho.
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