
09/09/2014
Antes de contar com redes de abastecimento de água e de coleta de esgoto, o vigia Mario Eugenio Lopes, de 74 anos, morador de Jurujuba, em Niterói, nem olhava o valor da conta da Cedae: simplesmente a rasgava. Há pelo menos cinco anos, com o saneamento enfim implantado, ele diz fazer questão de pagar regularmente a tarifa a uma concessionária. A oito quilômetros dali, no bairro do Rocha, em São Gonçalo, a situação é outra. A pastora Maria Ivani de Sá move um processo contra a Cedae desde 2000 — sua igreja não tem rede de esgoto, mas as contas chegam religiosamente em dia.
Os casos mostram o descompasso entre cidades vizinhas quando o assunto é saneamento, tema abordado na série de reportagens “Vinte anos de descaso’’, que, publicada pelo GLOBO no mês passado, mostrou o fracasso de projetos de despoluição da Baía de Guanabara. Dos dez municípios do estado que constam no último ranking da ONG Instituto Trata Brasil — que avalia o saneamento nas cem cidades mais populosas do país —, cinco estão entre os piores colocados da lista. Esses cinco — Belford Roxo, São Gonçalo, Duque de Caxias, São João de Meriti e Nova Iguaçu — têm serviços de saneamento operados pela Cedae e despejam esgoto na baía. Na ponta oposta, Niterói aparece na 14ª posição, muito à frente da capital fluminense, que amarga um modesto 56ª lugar. Na terra de Araribóia, a responsabilidade pelo saneamento é, há quase 15 anos, da concessionária Águas de Niterói.
O levantamento do Instituto Trata Brasil foi divulgado no mês passado, e tem como base os dados de 2012 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinis) do Ministério das Cidades. O trabalho suscita um debate que ganha terreno: a concessão dos serviços é a solução para as cidades do Estado do Rio deixarem definitivamente para trás patamares vexatórios? Alguns prefeitos parecem estar convencidos de que esse é, sim, o melhor caminho. Na Baixada, a prefeitura de São João de Meriti, após um embate de cinco anos com a Cedae, anuncia um acordo para início do tratamento de esgoto pela empresa Águas de Meriti. Mas a Cedae continua responsável pelo abastecimento de água.
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