
01/08/2013
Elas oferecem novas maneiras de pensar, ver e estar no mundo. Transmitidas oralmente de geração em geração, as narrativas míticas ameríndias trazem perspectivas poéticas e filosóficas sobre a formação da vida, a relação entre antepassados e espíritos, a convivência harmoniosa com a natureza, além de processos de curas medicinais e registros históricos milenares. Embora tenham muito a nos ensinar, continuam ignoradas pela maioria dos brasileiros, deixadas de lado dos currículos escolares e dos cânones literários. Porém, no momento em que os povos indígenas enfrentam uma batalha decisiva por terras e pelo reconhecimento de seus direitos previstos na Constituição de 1988, linguistas, antropólogos e poetas se esforçam em documentar e traduzir parte dos seus complexos universos narrativos.
Mesmo ainda longe de dar conta da amplitude e riqueza do repertório indígena, a tarefa tem inspirado publicações recentes, que vão desde rigorosos estudos antropológicos (como a série de "Cantos e histórias" das terras indígenas do Pradinho e de Água Boa) a reescrituras feitas por autores brasileiros atuais (o livro "Meu destino é ser onça", de Alberto Mussa). Nos últimos dois anos, os mitos ameríndios figuraram inclusive em duas amplas antologias de poesia nacional publicadas no Brasil ("Poesia.Br", lançado pela Azougue em 2013) e no exterior ("La poésie du Brésil", que apareceu na França no final de 2012 pela Éditions Chandeigne). Se a biodiversidade está ameaçada nos territórios onde estes povos encontram-se isolados, suas memórias e manifestações artísticas, contudo, se mantém ricas e duradouras.
- Ainda são poucas as edições sobre produção ameríndia no país. Temos uma das maiores diversidades linguísticas do mundo, mas nos acostumamos a traduzir apenas os clássicos da literatura ocidental - lamenta o poeta e antropólogo Pedro Cesarino Niemeyer, que acaba de lançar "Quando a Terra deixou de falar" (Editora 34), reunião e tradução de cantos da mitologia marubo. - Traduzir estes repertórios é fundamental para entender melhor o mundo dos indígenas. Saber lidar com eles é saber lidar com o próprio Brasil. É entender que o desenvolvimento não pode ser feito às custas destes povos que já estavam aqui há muito tempo, mas sim a partir deles.
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