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Árvores gigantes superam limites físicos para transportar água até seu topo

13/07/2026

Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (2) na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais –com altura equivalente à de prédios de 20 ou 30 andares– não têm dificuldade em transportar água da raiz até o topo e tampouco são mais vulneráveis à seca do que as menores.
O trabalho, que foi capa do periódico científico, detalha o mecanismo de sobrevivência dessas espécies ainda pouco compreendidas pela ciência, embora essenciais para a regulação do clima por sua capacidade de armazenar carbono.
Pesquisas anteriores sugeriam que, conforme as árvores ganham altura, a capacidade de mover água até sua copa poderia ser prejudicada pela maior distância entre raízes e folhas e pelos efeitos da gravidade. Isso reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a vulnerabilidade à seca.
Mas, de acordo com o novo artigo, as árvores gigantes desenvolveram adaptações internas que compensam os desafios de transportar água até os galhos mais altos. Além disso, testes realizados durante secas severas mostraram que elas não tiveram declínio acentuado de crescimento em comparação com árvores menores, contrariando a hipótese de que espécimes muito altos seriam mais suscetíveis ao estresse hídrico.
Os pesquisadores descobriram que ajustes dos conduítes do xilema ("tubos" microscópicos que a planta usa para conduzir água e nutrientes até as folhas), com diâmetros maiores conforme fica mais alta, compensaram o aumento da resistência ao fluxo de água durante o trajeto. Na prática, é como se a árvore precisasse de uma mangueira maior para levar água mais longe. Essas adaptações complexas são capazes de reduzir a chance de falhas no transporte hídrico quando a planta passa por uma seca.
No caso das folhas, o efeito da gravidade as obriga a funcionar com menor hidratação, levando-as a ficar murchas e ter que fechar os estômatos (estruturas microscópicas que funcionam como "poros") mais cedo, reduzindo sua fotossíntese. O estudo mostra, porém, que as árvores gigantes aumentam a tolerância a essas condições, sem prejuízo ao seu funcionamento.
Esses achados avançam na biologia das árvores gigantes, ajudando a explicar como conseguem superar limitações físicas e fisiológicas para conduzir água e continuar crescendo; aprimoram olhares sobre o papel das florestas nas mudanças climáticas e geram evidências para orientar ações de conservação, visando manter o equilíbrio do ciclo de carbono, de chuvas e da biodiversidade.
"Existem poucos dados sobre como as funções hidráulicas de uma planta mudam conforme ela cresce", diz o autor correspondente do artigo, Paulo Bittencourt, professor da Escola de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Cardiff (Reino Unido) e pesquisador colaborador do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
"É aceito que árvores maiores têm dificuldade em transportar água e, por isso, podem morrer mais em função de secas. Ficamos muito surpresos com o resultado do nosso estudo, verificando que elas têm um mecanismo interno de ajuste", conta.
Segundo o ecólogo, 1% das maiores árvores do planeta armazena mais da metade do carbono em ecossistemas florestais tropicais, além de contribuir com o ciclo de chuvas pela evapotranspiração.
O trabalho teve apoio da Fapesp por meio do programa Jovem Pesquisador, que concedeu financiamento ao biólogo Peter Groenendijk, que assina o artigo com Rafael Oliveira, ambos do instituto da Unicamp.
Para realizar o estudo, que levou mais de dois anos, o grupo utilizou uma amostra de 38 árvores da família Dipterocarpaceae, de cinco espécies, localizadas na Reserva Florestal Kabili-Sepilok (Malásia), na ilha de Bornéu. A reserva é mundialmente conhecida por abrigar centros de conservação, inclusive o primeiro criado no mundo para reabilitação de orangotangos.
Essas árvores, variando de 7,1 a 71 metros, são consideradas as mais altas com flores dos trópicos.

Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo

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