
09/06/2026
Nos rios do México e do sul do Estado americano do Texas, é possível encontrar uma espécie de peixe que não deveria existir.
Nas águas quentes e lentas da região, ela se move em meio ao seu cardume, todo composto de fêmeas.
Suas escamas prateadas tocam levemente os machos de espécies similares. E é ali que ela escolhe um parceiro. Mas, em uma guinada evolutiva incomum, a prole não herda os genes do pai.
Este processo biológico é conhecido como ginogênese. Nele, a fêmea usa o esperma do macho apenas para iniciar o desenvolvimento das ovas, descartando rapidamente o DNA do pai. Ela produz apenas fêmeas e cada uma é um clone dela própria.
Este peixe é a molinésia-amazona. Seu nome não vem da floresta sul-americana, mas da tribo de mulheres guerreiras da mitologia grega. E a espécie intriga os cientistas há quase um século.
Segundo a teoria da evolução, as espécies assexuadas deveriam se extinguir rapidamente. Afinal, sem o sexo, elas acumulam mutações prejudiciais nos seus genomas ao longo do tempo.
Mas esta espécie, composta apenas por fêmeas, persiste há cerca de 100 mil anos.
Na análise convencional, sua presença na árvore da vida deveria ter sido efêmera. Ainda assim, esta criatura pequena e despretensiosa insiste em sobreviver.
Como a molinésia-amazona sobreviveu quando a teoria sugere que ela deveria ter sido extinta há muito tempo?
Novas pesquisas começam a desvendar este mistério. E os cientistas estão descobrindo que as espécies assexuadas podem ser mais resilientes do que se pensava, desafiando a antiga ideia de que a vida sem sexo está condenada ao fracasso.
Para compreender por que a sobrevivência da molinésia-amazona sem sexo é tão notável, é preciso saber antes o seguinte: afinal, por que existe o sexo?
"A reprodução sexuada é uma forma bastante estranha e complicada de reprodução, não é?", segundo o biólogo computacional Edward Ricemeyer, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, na Alemanha. Ele é um dos autores do novo estudo sobre a molinésia-amazona.
"Se você observar o quadro como um todo, é 99,9% sexo", afirma o biólogo evolutivo Dave Speijer, da Universidade de Amsterdã, na Holanda, especialista nas origens da reprodução sexuada.
Uma razão, segundo Speijer, é que o sexo permite que as populações explorem o "espaço de possibilidades" genéticas com mais eficiência.
Durante a reprodução sexual, o DNA dos dois pais é reordenado por meio de um processo conhecido como recombinação, que oferece a cada filhote uma combinação única de genes.
A recombinação funciona como embaralhar e distribuir as cartas de um baralho, com cada embaralhamento criando um novo jogo a ser testado pela evolução.
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