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Brasil reaproveita só 1,3% dos materiais que consome, diz novo relatório

19/05/2026

O Dia Mundial da Reciclagem é celebrado neste domingo (17), mas o Brasil tem pouco a comemorar: apenas 1,3% dos materiais consumidos internamente são reutilizados, enquanto a média global é de 6,9% de reaproveitamento.
É o que aponta o relatório Circularity Gap Report, produzido pela organização internacional Circular Economy e pela consultoria Deloitte. A Folha teve acesso exclusivo ao recorte brasileiro do estudo, que detalha pela primeira vez o quanto o país está distante da economia circular, sistema em que objetos descartados deixam de virar lixo e são transformados em novos produtos.
A economia brasileira segue o modelo linear, de produção, uso e descarte: 98,7% dos recursos retirados do meio ambiente são consumidos uma única vez e acabam se tornando resíduos.
Maria Emília Peres, sócia de estratégia em sustentabilidade da Deloitte Brasil, afirma que o quadro se deve ao perfil extrativista do país, baseado em mineração, agropecuária e construção civil —setores que consomem grandes volumes de materiais com baixo aproveitamento posterior. "Não é um problema de comportamento individual, é um problema de arquitetura econômica", diz.
O Brasil extraiu 5,2 bilhões de toneladas de matéria-prima virgem em 2023, sendo que 4,1 bilhões de toneladas foram consumidas internamente e o restante foi exportado.
Da pequena parcela de materiais reaproveitados, apenas 3,7% vêm do tratamento de resíduos domésticos. Atividades de construção e demolição estão ligadas a 48,2% dos itens reciclados, e subprodutos industriais e agrícolas respondem por 48,1% do total.
Os números mostram que o reúso se concentra na cadeia produtiva, como o cascalho que volta para uma obra e o bagaço de cana-de-açúcar que vira energia, e não na gestão do lixo, diz Peres. "A circularidade que temos é quase acidental, não sistêmica."
Em média, cada brasileiro consome 19,8 toneladas de recursos naturais por ano, acima do patamar global, de 12,6 toneladas por pessoa, e mais que o dobro do nível sustentável, de 8 toneladas anuais.
As nações em desenvolvimento tendem a consumir menos, mas os dados mostram que o Brasil consome muito e reaproveita pouco, afirma Peres. "Isso quebra um certo conforto narrativo de que ´somos menos culpados porque somos menos desenvolvidos´. Não somos."
O índice de circularidade olha para ciclo completo: quanto material entra na economia, quanto é reaproveitado e em que qualidade. Já os indicadores de reciclagem consideram apenas o volume do resíduo gerado que volta ao processo.
"Um país pode reciclar bem e ainda assim ter uma economia altamente linear se continuar extraindo recursos em ritmo insustentável. O Brasil é um exemplo disso", afirma Peres.
O relatório nacional calcula que 608 milhões de toneladas de resíduos foram geradas em 2023. Porém, apenas 43,5 milhões de toneladas, ou 7,2%, foram recicladas.
Cerca de 262 milhões de toneladas, ou 43%, tiveram destinação inadequada, como lixões, ou sequer tiveram coleta, aumentando o risco de contaminação ambiental. Por outro lado, 302,2 milhões de toneladas (49,7%) foram direcionadas a aterros.
As organizações reconhecem o trabalho dos catadores e o alto nível de reciclagem de alguns materiais, como latinhas de alumínio (97%) e papelão (67%), mas afirmam que há ineficiência na gestão dos resíduos do país.
A biomassa representa 57,1% dos recursos extraídos, com 2,9 bilhões de toneladas, sendo que 2,6 bilhões de toneladas permanecem no mercado interno para atender à demanda por alimentos, ração animal e combustíveis, principalmente etanol.
Recursos minerais não metálicos, como areia, cascalho, calcário e argila, respondem por 23,3% do total explorado, ou 1,2 bilhão de toneladas, e abastecem a construção civil.
A mineração equivale a 16,1% dos recursos extraídos anualmente, sendo 560,9 milhões de toneladas apenas em minério de ferro e compostos relacionados. Já os combustíveis fósseis representam 3,5% do total, e o relatório destaca o aumento dos investimentos nesse setor, apesar de metas de redução dos gases-estufa.

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