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Hanói abre parques e muda dinâmica urbana

14/05/2026

Em muitas cidades, entrar em parques ainda é um ato deliberado: é preciso ajustar o trajeto, localizar um portão e atravessar da calçada pública para um espaço que, mesmo com poucas regras aparentes, funciona de maneira separada da cidade ao redor. Hanói decidiu romper com essa lógica. A capital vietnamita vem removendo as cercas de ferro de quatro grandes parques da cidade, Cầu Giấy, Bách Thảo, Thống Nhất e Indira Gandhi, em uma iniciativa que redefine a relação entre os espaços verdes e a vida urbana. Os portões desapareceram e os limites antes rígidos passaram a se integrar às ruas e calçadas.
Nesse momento, é possível atravessar os parques por diferentes direções, a qualquer hora, incorporando-os ao trajeto cotidiano, e não mais como um destino isolado. “Antes, tínhamos que caminhar muito para chegar ao portão principal”, disse Hoàng Thị Hiền, moradora do bairro de Thanh Xuân. “Agora posso entrar no parque por qualquer lugar. Parece aberto e natural, como se fizesse parte da minha vizinhança.” A transformação faz parte dos objetivos de planejamento urbano de longo prazo de Hanói e reflete uma revisão mais ampla sobre o papel que o espaço público deve desempenhar em cidades densamente urbanizadas.
No Parque Thống Nhất, um dos primeiros a passar pela mudança, mais de dois quilômetros de cercas foram removidos, conectando diretamente o parque à malha viária do entorno. O impacto no fluxo de pedestres foi imediato. “Agora as pessoas podem entrar e sair por várias direções, tornando o acesso muito mais conveniente e aumentando significativamente a sua utilização”, afirmou Nguyễn Tiến Quang, vice-presidente do distrito de Hai Bà Trưng. “O parque deixou de ser apenas um lugar para visitar. Ele se integrou diretamente ao cotidiano dos moradores.”
A mudança também alterou o perfil dos frequentadores e os horários de uso. As manhãs e fins de tarde passaram a reunir públicos mais diversos, desde idosos praticando exercícios até famílias jovens, além de estudantes e visitantes internacionais, que adicionaram novas camadas de atividade aos espaços. No Parque Bách Thảo, a abertura atraiu especialmente os jovens. “Estamos vendo mais visitantes jovens vindo tirar fotos, fazer piquenique e crianças brincando em áreas recém-conectadas a calçadas”, disse Nguyễn Thị Lành, chefe da equipe de manutenção do parque. Segundo ela, a remoção simultânea das taxas de entrada tornou o espaço mais acessível para diferentes faixas de renda.
Para o arquiteto Phạm Anh Tuấn, da Universidade de Engenharia Civil de Hanói, a principal mudança vai além da circulação física. Ele destaca que acesso real e sensação de acesso são coisas diferentes. “Mesmo antes da remoção das cercas, o acesso aos parques não era particularmente difícil”, explicou. “No entanto, em termos de organização espacial, a remoção das cercas criou um ambiente muito mais aberto. Mais importante ainda, proporciona uma sensação de proximidade. Os parques se tornam uma parte natural da vida cotidiana.” Segundo ele, mesmo destrancada, uma cerca transmite a ideia de separação. Ela sinaliza que o parque opera sob regras próprias e que entrar ali exige intenção. Sem essa barreira, o espaço passa a ser percebido de outra forma. No Parque Indira Gandhi, essa mudança já vem alterando a percepção do entorno urbano. “Quando as cercas foram removidas, o parque se integrou completamente às calçadas e ruas ao redor”, disse Nguyễn Anh Dũng, vice-presidente do distrito de Giảng Võ. “As vistas abertas ajudam a reduzir a sensação de congestionamento causada pelos blocos de concreto ao redor, criando uma transição mais suave entre os espaços urbanos.” Urbanistas apontam que áreas verdes têm papel importante na redução da densidade visual em regiões altamente construídas. Sem grades delimitando o parque como um espaço isolado, ele passa a se integrar naturalmente ao tecido urbano.
A abertura, porém, trouxe novos desafios de gestão. O aumento da circulação de pessoas gerou problemas relacionados ao estacionamento irregular e à presença de vendedores ambulantes não autorizados em alguns pontos. “No passado, a gestão se concentrava nos portões de entrada. Com os parques abertos, o controle agora precisa abranger todo o espaço”, explicou Quang. Em resposta, o distrito ampliou o patrulhamento e reorganizou as áreas de atividade dentro do parque. Para Tuấn, o fortalecimento do sentimento de pertencimento é o caminho mais sustentável a longo prazo. “Organizar atividades culturais e artísticas adequadas a cada espaço atrairá mais pessoas. Ao participarem, elas não apenas utilizam o espaço, mas também se apropriam dele em um sentido espiritual, o que ajuda a aumentar a conscientização sobre a preservação“, afirmou. A lógica, segundo especialistas, é simples: pessoas que sentem que um lugar lhes pertence tendem a cuidar melhor dele. Ainda é cedo para saber se essa dinâmica se consolidará de forma permanente nos parques de Hanói. Mas os primeiros resultados já indicam que a remoção de uma barreira física conseguiu algo que o planejamento urbano frequentemente busca alcançar: fazer com que os cidadãos sintam que o espaço público é, de fato, deles.

Fonte: CicloVivo

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