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Preservação de entorno de matas garante maior sobrevivência de aves

05/05/2026

A sobrevivência de populações de animais em florestas na região tropical é afetada não apenas pelo tamanho das matas, mas também pelo tipo de ambiente do entorno, sugere novo estudo.
A fragmentação de áreas naturais é hoje uma das principais ameaças que levam à perda da biodiversidade. Garantir a preservação de ecossistemas não necessariamente leva a um aumento na riqueza de espécies se não houver, também, uma preservação da chamada paisagem circundante.
A pesquisa mostrou que fragmentos de mata quando inseridos em um entorno terrestre têm uma menor taxa de extinção local de aves em comparação a florestas de mesmo tamanho em ilhas formadas por barragens ou represamentos de rios e lagos.
A relação espécies-área (valor utilizado por ecólogos) também é maior em fragmentos de mata terrestres quando há outros localizados próximos, até o limite de um raio de 300 metros.
Este efeito foi ainda mais significativo para as espécies dependentes de floresta que habitam fragmentos pequenos, afirma Anderson Saldanha Bueno, biólogo, pesquisador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, em Júlio de Castilhos (RS), e coordenador do estudo.
Inversamente, ilhas com fragmentos de matas em reservatórios apresentaram um menor número de espécies, com taxa de extinção local elevada.
O artigo com os achados da pesquisa foi a capa da revista especializada PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) em março, e contou com pesquisadores de instituições nacionais e estrangeiras.
Foram utilizadas 50 bases de dados, compreendendo 1.005 fragmentos de floresta tropicais e subtropicais formados por ação humana em todo o mundo (669 fragmentos de floresta e 336 de reservatórios) e totalizando mais de 39 mil registros de 1.954 espécies de aves. Na análise, os pesquisadores viram que não importa apenas o tamanho ou quão isolado o fragmento encontra-se para a sobrevivência de espécies, mas também o seu entorno.
Segundo Bueno, a sacada do estudo foi comparar os dois tipos de terrenos (chamadas de matrizes terrestre e aquática), excluindo habitats de ilhas oceânicas, e utilizar espécies um único grupo taxonômico (aves).
Além disso, eles consideraram um conjunto de toda a avifauna (todas as espécies de aves) e outro de espécies dependentes de florestas. O número espécies de cada remanescente florestal foi definido a partir de listas de aves identificadas em campo por avistamento, canto ou captura seguida de soltura.
Tradicionalmente, estudos sobre ecologia de habitats fragmentados utilizam a lógica do tamanho do fragmento —isto é, quanto maior o fragmento, mais espécies ele tende a abrigar, explica o biólogo. Só que essas pesquisas foram construídas, em sua maioria, em ilhas naturais, onde o entorno (aquático) é inóspito. No entanto, a fragmentação de habitats afeta os organismos que já compõem aquela fauna.
Em fragmentos florestais, o pior cenário é visto na matriz aquática em ilhas florestais isoladas, onde a perda local de espécies é agravada. O mais favorável, por sua vez, ocorre em paisagens de entorno terrestre com outros fragmentos próximos.
"Se uma floresta sofre uma fragmentação e eu tenho agora dois fragmentos, de igual tamanho, com dez espécies cada um, só de mudar o entorno de terrestre para aquático haverá uma redução mais acentuada espécies. No fragmento cujo entorno é terrestre, eu posso mais que dobrar o número de espécies", explica.
O professor e curador da coleção de aves do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo), Luís Fábio Silveira, afirma que o estudo tem implicações importantes para a elaboração de políticas públicas de conservação pois ele fornece dados robustos em um grande gradiente geográfico —incluindo vários biomas.
"As matrizes do entorno são importantes para garantir oportunidades de trânsito e propagação dos organismos. As UCs [Unidades de Conservação] em meio a uma matriz hostil perdem, ao longo do tempo, sua efetividade", diz ele, que também assina o estudo.
Nesse caso, os resultados obtidos podem ajudar a moldar políticas públicas de conservação de remanescentes florestais, principalmente aqueles inseridos em um contexto rural ou urbano. "O próximo passo seria distinguir se essa paisagem circundante é pasto, cultivo ou vegetação em regeneração", diz Bueno.

Fonte: Folha de S. Paulo

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