
05/05/2026
Não há possibilidade de que o Brasil tenha uma transição ecológica sem uma transição do sistema agroalimentar. A ideia é defendida pelo diretor-científico do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Arilson Favareto, que afirma que, diante do agravamento da crise climática, é preciso rever o modelo de financiamento ao setor agropecuário.
"Acho absurdo que, num contexto em que tanto se discute equilíbrio fiscal e eficiência do gasto público, não se depurem os gastos com o sistema agroalimentar brasileiro", afirma, em entrevista à Folha.
Segundo o sociólogo, não se pode imaginar que a produção possa ocorrer da mesma forma que há 50 ou 60 anos. "Na prática, [isso] representa uma transferência de renda da maior parte da sociedade para o setor."
Para Favareto, a discussão pós-COP30 —cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática realizada em Belém no ano passado— deve priorizar a disputa pelo sentido da transição.
"Há 10, 15 anos, práticas regenerativas eram vistas como conversa de ambientalista; hoje, é palavra de ordem. Algo se moveu no discurso, mas não com a mesma intensidade nas práticas."
Ele é um dos organizadores do livro "Caminhos para a Transição do Sistema Agroalimentar - Desafios para o Brasil", lançado em outubro passado. Elaborada em parceria com o pesquisador Ricardo Abramovay, da USP (Universidade de São Paulo), a obra analisa como a monotonia alimentar se tornou predominante no dia a dia.
🎤 Como a monotonia alimentar se manifesta no Brasil?
É uma alimentação cada vez mais monótona, baseada em ultraprocessados e menos numa alimentação diversificada, com alimentos in natura ou minimamente processados. Setenta e cinco por cento das calorias vegetais consumidas vêm de apenas seis alimentos: cana, arroz, trigo, soja, milho e batata.
Na produção agropecuária, o traço marcante também é o da monotonia. A maneira de cultivar essas poucas espécies se baseia na monotonia genética, e as tecnologias de cultivo se apoiam na eliminação da diversidade da microbiologia dos solos.
🎤 Quais são os impactos socioambientais desse modelo?
Do lado ambiental, temos olhado muito para emissões de gases de efeito estufa. Existe uma correlação direta entre a expansão da agropecuária e o desmatamento, que são as principais fontes das emissões brasileiras. Mas as emissões são só um dos impactos. Para dar alguns exemplos: a erosão da biodiversidade global, [que se reflete na perda de] biodiversidade dos solos das áreas onde se produz. Um outro limite do planeta em níveis críticos é o da disponibilidade de água doce, dos recursos hídricos. Ou seja, não há possibilidade de termos uma transição ecológica sem uma transição do sistema agroalimentar.
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