
28/04/2026
"Vocês viram o tamanho da colônia de Millepora que tem ali?"
"Vi! Imensa e está totalmente saudável, nem sinal de branqueamento!"
"Caramba, que linda!"
A comemoração era geral entre os pesquisadores que nadavam em meio ao recife do Parcel das Paredes, na costa de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Exclusivo do Brasil, o Millepora alcicornis é um dos corais da região mais sensíveis ao branqueamento —fenômeno causado pelo aquecimento excessivo do oceano.
É para garantir a sobrevivência desta e de outras espécies ameaçadas que ambientalistas, ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e lideranças locais estão se mobilizando para ampliar a proteção ambiental na região.
O parcel fica entre os limites do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, área de proteção integral, e da Resex (Reserva Extrativista) do Cassurubá, espaço também protegido, mas onde a comunidade local pode fazer o uso sustentável dos recursos naturais.
A região integra o Banco dos Abrolhos, que se estende por 46 mil km² na costa brasileira e abriga os maiores e mais ricos recifes de coral do Atlântico Sul. No Parcel das Paredes, porém, há poucos peixes, resultado de anos de pesca por frotas que vêm de outras áreas.
Daí a surpresa de encontrar corais tão preservados por ali. Um estudo recente mostrou que o coral-de-fogo, nome popular da Millepora alcicornis, já colapsou em Abrolhos e está perto de desaparecer.
"Vimos 14 espécies de corais aproximadamente, das 21 que existem aqui na região de Abrolhos. É difícil ver tanta diversidade num mesmo mergulho", afirma o biólogo Guilherme Dutra. Um dos integrantes da expedição, ele pesquisa ambientes recifais na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). "Isso é sinal do quão resiliente um ambiente como esse é."
Dentro dos limites do parque nacional, o cenário submarino é ainda mais exuberante. O mar calmo e cristalino abriga dezenas de espécies de peixes, numa infinidade de cores: robalo, agulhinha, frade, pargo, cirurgião… além do budião-azul, símbolo da região e ameaçado de extinção pela sobrepesca.
O local é a casa de tubarões-lixa e imensas arraias-prego (esta repórter viu uma de quase dois metros de comprimento) e serve de "restaurante" para diferentes espécies de tartarugas —sem falar dos camarões, lulas, mexilhões e todos os outros invertebrados que se abrigam nos corais.
As águas quentes da região também atraem baleias-jubarte, que migram da Antártida para Abrolhos para se reproduzir e ter filhotes.
"A gente apoia a ampliação do parque, porque sabemos da importância de Abrolhos", afirma Joelma Pinheiro da Silva, presidente da Associação Mãe dos Moradores da Resex Cassurubá. Como ela, muitos ali dependem da pesca artesanal para subsistência.
"Abrolhos é útero daqui. É lá que os peixes desovam e crescem. Depois, eles vêm para fora [dos limites do parque], onde vão dar o nosso sustento."
Mas, além da pressão da pesca em larga escala, toda essa biodiversidade pode ser impactada por grandes empreendimentos. No portal da ANM (Agência Nacional de Mineração), constam diversos processos minerários na região, principalmente para a extração de sal-gema. Existem, ainda, blocos de petróleo e gás passíveis de exploração nas proximidades.
Leia a matéria completa no Folha de S. Paulo
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