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Poluição luminosa ameaça um dos céus mais escuros do mundo no Atacama, referência global em astronomia

28/04/2026

Leva alguns segundos até os olhos se acostumarem. Primeiro, um ponto de luz. Depois, outro. Em poucos instantes, o céu se abre em detalhes raros: estrelas, planetas e até a Via Láctea visíveis a olho nu. Essa experiência, cada vez mais incomum no mundo, ainda é possível no Deserto do Atacama, no Chile —mas pode não durar.
Considerado um dos melhores lugares do planeta para observar o universo, o Atacama enfrenta uma pressão crescente da poluição luminosa, resultado da expansão urbana, da mineração e de novos projetos de energia.
Cientistas alertam que mudanças no ambiente podem comprometer décadas de pesquisa e reduzir drasticamente a qualidade das observações astronômicas.
O norte do Chile reúne condições raras: altitude elevada, ar extremamente seco e baixa presença de nuvens. O resultado são mais de 300 noites claras por ano —um cenário ideal para telescópios que dependem de céu limpo e escuro para captar sinais vindos de bilhões de anos-luz de distância.
Esse conjunto transformou a região em um polo global da astronomia. Ali estão alguns dos instrumentos mais sofisticados já construídos, incluindo o futuro Telescópio Extremamente Grande (ELT), que promete ampliar a capacidade de observação a níveis inéditos.
A qualidade do céu, no entanto, não depende apenas da ausência de nuvens. A escuridão é um componente central. Mesmo fontes de luz aparentemente pequenas —como iluminação urbana distante— podem interferir nas medições.
Telescópios captam quantidades mínimas de luz vindas de objetos extremamente distantes. Quando há iluminação artificial no ambiente, essa “poluição” se mistura aos sinais cósmicos e reduz o contraste das imagens.
Isso significa perda de resolução e de precisão. Um telescópio projetado para observar galáxias distantes pode passar a operar com desempenho semelhante ao de equipamentos muito menores se estiver exposto à luminosidade excessiva.
Além da luz, projetos próximos podem gerar poeira, vibrações e alterações na atmosfera —fatores que também prejudicam as observações.
O alerta mais recente surgiu com a proposta de construção de um complexo de energia verde a cerca de 10 quilômetros do Observatório Paranal, um dos principais centros astronômicos da região.
Embora o projeto tenha sido cancelado após pressão internacional de cientistas, o episódio evidenciou lacunas na legislação chilena de proteção do céu noturno. Pesquisadores avaliam que as regras atuais são insuficientes para impedir novas iniciativas semelhantes.
Desde então, autoridades revisam normas ambientais para definir critérios mais rígidos nas chamadas zonas astronômicas protegidas.
Nas últimas décadas, o Atacama deixou de ser um território isolado. A região passou a concentrar atividades industriais, mineração e infraestrutura energética —um movimento que amplia a pressão sobre o ambiente.
A mudança é visível para quem acompanha a evolução do local. O que antes era descrito como um “oceano de escuridão” hoje convive com fontes de luz e intervenções humanas cada vez mais próximas dos observatórios.
Esse avanço cria um dilema para o país: equilibrar desenvolvimento econômico com a preservação de um recurso considerado estratégico para a ciência global.
O histórico da região mostra que o impacto da atividade humana sobre a astronomia não é apenas teórico. Um observatório solar internacional operado no Chile no início do século XX foi desativado após o aumento da poluição associado à mineração.
Para pesquisadores, o episódio serve como referência de que a perda de qualidade do céu pode inviabilizar projetos científicos inteiros.

Fonte: g1

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