
07/04/2026
No Japão, a época das cerejeiras em flor costuma ser de despreocupação; é quando as famílias se reúnem para fazer piquenique sob as árvores e os amigos se encontram para a "contemplação" noturna. Já para Hiroki Ito, cientista de dados e meteorologista especializado na delicada arte de prever a data exata da florada, sempre foi sinônimo de estresse.
As flores, tão apreciadas, geram uma receita anual estimada em mais de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 46 bi), entre o turismo e outras atividades. Por isso, as companhias aéreas, os hotéis e os restaurantes dependem das previsões —sem falar nos 123 milhões de japoneses que querem saber o momento de ir aos parques e jardins públicos para conferir o auge da floração.
"É muita pressão; sinto o peso da história. Na verdade, tenho um pouco de medo da primavera. Não consigo aproveitá-la plenamente", confessou ele, que trabalha há mais de uma década na Corporação Meteorológica do Japão em Osaka, uma das principais entidades de previsão.
Além dele, outros especialistas passaram a usar uma ferramenta que deve reduzir parte do fardo da responsabilidade: a inteligência artificial. Estão adotando sistemas para analisar décadas de informações de temperatura e fornecer mapas e "medidores" para as árvores em mais de mil locais, com floradas em épocas diferentes.
Este ano, estão coletando fotos do público para alimentar os bancos de dados e, com isso, poderão rastrear o crescimento dos botões que se formam no verão, permanecem dormentes durante o inverno e levam de duas semanas a um mês para desabrochar, depois de ficarem verdes na primavera.
Antigamente, só contavam com as análises dos padrões climáticos feitas por computador e a observação das árvores para prever a chegada da "frente de floração", nem sempre com sucesso. Em 2007, por exemplo, os funcionários da Agência Meteorológica Oficial do Japão foram obrigados a se desculpar pela TV, depois que uma falha no sistema gerou uma discrepância de até nove dias em alguns lugares.
Os cientistas afirmam que a IA garante mais eficiência e precisão ao processo, permitindo que as primeiras previsões fossem divulgadas com alguma antecedência, em dezembro —ou seja, três meses antes do início da temporada principal.
Shunsuke Arioka, meteorologista da Weathernews em Chiba que costumava basear as previsões principalmente em modelos básicos de computação e fórmulas, agora realiza análises em milhares de fotos enviadas por usuários através do aplicativo da empresa, que conta com mais de 50 milhões de arquivos. Em um fim de semana recente, a companhia recebeu mais de 8.000, classificadas pela tecnologia em sete estágios de floração. "Poupa um tempo precioso. São dados de milhões de pessoas, mas agora temos condições de classificá-los instantaneamente."
De fato, há muita coisa em jogo, pois milhões de turistas de fora e de dentro do país planejam a viagem com base no calendário de floração; as prefeituras realizam festivais baseadas na alta temporada; os restaurantes preparam cardápios temáticos de sakura, investindo em ingredientes como flores em conserva; os moradores organizam festas para admirar as flores, às vezes fazendo fila nos parques durante a noite para garantir os espaços tão disputados.
O costume de admirar as floradas, conhecido como hanami, remonta ao século 9, quando o Imperador Saga incentivava o público a admirá-las, chegando a encomendar poemas sobre elas. No Japão, diz-se que sua natureza efêmera —já que caem em uma semana— simboliza a essência da vida.
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