
24/03/2026
Os tentilhões de Darwin nas Galápagos, os tentilhões domésticos no México e os tordos na Nova Zelândia desenvolveram um hábito curioso: colocam bitucas de cigarro em seus ninhos. Algumas aves canoras na Grã-Bretanha estão até fazendo ninhos em cinzeiros ao ar livre.
Um novo estudo traz evidências sobre por que aves urbanas adotaram essa preferência, pelo menos em uma espécie: as toxinas do tabaco podem afastar parasitas dos ninhos dos chapins-azuis (Cyanistes caeruleus), aves coloridas encontradas em toda a Europa.
As bitucas de cigarro contêm cerca de 4.000 compostos químicos, incluindo nicotina, arsênico, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e metais pesados. Esses compostos podem afastar pragas que prejudicam as aves e seus filhotes. O estudo foi publicado neste mês na revista Animal Behaviour.
Os chapins-azuis são aves que nidificam em buracos, construindo ninhos em ocos naturais ou caixas feitas por humanos. Seus ninhos também são habitat ideal para parasitas hematófagos, como carrapatos, pulgas e moscas-varejeiras, que podem explorar seus alvos cativos —adultos chocando ovos e filhotes indefesos.
Assim, em relação às bitucas de cigarro e nidificação em cinzeiros ao ar livre, os pesquisadores queriam saber se os chapins-azuis poderiam se beneficiar dos efeitos pesticidas do tabaco.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Lodz, na Polônia, estudou chapins-azuis em parques urbanos e florestas próximas à universidade. Eles monitoraram a saúde de 99 aves nascidas em três tipos de caixas-ninho. Algumas caixas-ninho padrão serviram como controle. Um segundo grupo recebeu um ninho com interior de musgo artificial esterilizado e algodão. No terceiro grupo de ninhos foram colocadas duas bitucas de cigarro usadas.
Usar foles para fumar os cigarros mecanicamente "foi a parte mais desafiadora do experimento", disse o ecólogo evolucionista ichal Gladalski, que liderou o estudo. Ele não é fumante e queria evitar prejudicar seus pulmões ou os de qualquer outra pessoa.
Treze dias após a eclosão, três filhotes por ninhada foram medidos e tiveram amostras de sangue coletadas. Os exames de sangue indicaram que os filhotes tanto nos ninhos estéreis quanto naqueles com bitucas de cigarro eram mais saudáveis do que os dos ninhos não tratados.
Depois que os filhotes deixaram o ninho, os pesquisadores analisaram as populações de parasitas de todo o material dos ninhos. Os invasores eram mais numerosos nos ninhos naturais e quase ausentes nos ninhos com materiais esterilizados. Nos ninhos com bitucas, os parasitas eram ligeiramente menos numerosos do que nos ninhos naturais, particularmente moscas-varejeiras e pulgas.
Constantino Macías García é ecólogo da Universidade Nacional Autônoma do México e faz parte de uma equipe que estuda o uso de cigarros por aves há mais de uma década. O fato de a equipe na Polônia ter encontrado algum efeito foi notável, segundo ele.
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