
12/03/2026
Grandes cidades brasileiras estão despreparadas para lidar com um clima cada vez mais imprevisível e extremo, impulsionado pelas mudanças climáticas, afirma Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Segundo dados do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), mesmo com volumes de chuva abaixo da média, o período chuvoso entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 tem provocado alagamentos, deslizamentos de terra e apagões em grandes centros urbanos.
“Das 27 capitais do Brasil, 15 não possuem planos de adaptação e mitigação climática. O que existem são ações emergenciais em resposta a desastres, mas faltam medidas preventivas capazes de reduzir riscos futuros. É necessário um enfoque maior em políticas estruturantes, implementadas antes que os desastres ocorram, e que incluam a proteção da vegetação nativa, a criação de corredores verdes e a preservação de áreas de proteção permanente. Esses mecanismos funcionam como uma ‘esponja natural’, ajudando a regular o microclima, absorver a água da chuva e reduzir extremos”, destaca Jarlene Gomes, que também é uma das autoras do Plano de Adaptação Municipal de Rio Branco, no Acre.
Das nove capitais da Amazônia Legal, apenas Rio Branco possui plano de adaptação climática. Em 2023 e 2024, a região enfrentou secas históricas, que favoreceram a ocorrência de queimadas de grandes proporções, mantiveram cidades cobertas de fumaça e ar tóxico por semanas consecutivas e dificultaram o acesso a áreas remotas do bioma.
Em Manaus, a maior capital brasileira sem um plano de adaptação, mais de 112 mil pessoas vivem em áreas sujeitas a deslizamentos ou alagamentos, segundo levantamento do SGB (Serviço Geológico do Brasil). Já em Belém, sede da COP30, cuja agenda destacou a adaptação climática, o SGB aponta que 10% da população reside em áreas sob risco de inundação.
Segundo levantamento realizado pelo IPAM em parceria com pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido; da Universidade de Cuenca, no Equador; da Universidade Federal do Acre; da Fundación Innova, de Santa Cruz de la Sierra; e da Universidade de Stony Brook, nos Estados Unidos, entre 2013 e 2023 mais de 12 mil eventos climáticos extremos foram reportados na Amazônia continental — área que inclui o território internacional do bioma. As catástrofes afetaram mais de 3 milhões de pessoas e danificaram mais de 100 mil estruturas de infraestrutura.
Na Amazônia brasileira, eventos climáticos extremos como inundações e secas prolongadas também agravam as vulnerabilidades sociais e ameaçam a sociobiodiversidade da região. Conforme dados do IPAM publicados no policy brief “Acelerando Estratégias de Adaptação Equitativa na Amazônia em Meio às Mudanças Climáticas”, os prejuízos causados pelo clima na região chegam a R$ 3 bilhões por ano, um aumento de 370% em comparação ao impacto registrado no início do século. No mesmo período, a ocorrência de inundações e deslizamentos de terra associados às chuvas também triplicou.
“As estratégias de adaptação climática têm um custo financeiro e exigem a mobilização de estruturas de governança e monitoramento. Mas, quando se compara esse custo com o dos desastres e seus desdobramentos, vemos que o investimento em adaptação ainda é muito baixo diante dos benefícios que pode gerar”, afirma Patrícia Pinho, diretora de Pesquisa do IPAM.
Além do impacto econômico crescente, o estudo destaca que os eventos climáticos extremos atuam como “multiplicadores de pobreza”, provocando impactos principalmente na infraestrutura e nas moradias. Os municípios pequenos da Amazônia, que também concentram grande parte dos povos indígenas e comunidades tradicionais, estão entre os mais afetados e são justamente os que dispõem de menos recursos para lidar com os efeitos de chuvas intensas e secas severas.
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