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Amazônia negra será protagonista no desfile da Mangueira

05/02/2026

"Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá". Os versos do samba da Mangueira para 2026 já indicam a união das culturas do Norte e do Sudeste do Brasil no carnaval que a escola propõe neste ano. A Verde e Rosa vai desfilar com o enredo Mestre Sacaca do Encanto Tucuju — O Guardião da Amazônia Negra.
Quando conheceu a figura de Mestre Sacaca, o carnavalesco Sidnei França não sabia quem era ele. Com a curiosidade despertada, viu que o personagem, já falecido, tinha vivido no Amapá. “Foi um curandeiro, uma pessoa importante para a sociabilidade do povo amapaense e especialmente o povo preto e pobre", descreveu.
Ampliando as pesquisas, ele descobriu a ideia muito contemporânea do conceito de uma amazônia negra, o que chamou atenção dele e dos pesquisadores da Mangueira.
“Achamos esse conceito de que o estado do Amapá tem uma autodeclaração negra muito forte. Dois terços do estado do Amapá, no último Censo, se declarou negra. Eles têm um conceito de uma amazônia negra, de negritude amazônica, que achei muito forte”, comentou, acrescentando que isso os levou a pensar a amazônia em um outro sentido, diferente “do pensamento colonizado brasileiro da amazônia essencialmente como floresta e enquanto ocupação indígena”.
“É uma outra camada de fôlego para o enredo da Mangueira. Olhar para um local, uma região, para um povo que até se acostumou a ser invisibilizado no contexto nacional”, pontuou.
Na visão do carnavalesco, a escola vai homenagear um homem que dedicou a sua vida a entender o seu povo e o país. “Ele mergulhou nos rios, se embrenhou nas matas, aprendeu com os negros e os indígenas, por isso o enredo é afro-indígena. O mestre Sacaca carrega essa herança afro-indígena muito ligada à ideia de cura, proteção através de garrafadas, chás, unguentos e infusões”, completou, citando que Mestre Sacaca deixou três livros publicados sobre a cura por meio das ervas.
Sidnei França exalta que o homenageado foi um homem que fez diferença especialmente entre o povo de menor condição financeira e que sempre viu a natureza como meio de integração entre o homem e o natural.
“O próprio título do enredo da Mangueira chama ele de guardião da cultura negra”, disse, lembrando que Mestre Sacaca interagiu com tambores de escolas de samba, foi rei momo e tocava tambor de marabaixo — manifestação cultural do Amapá.
Para desenvolver o enredo, Sidnei França foi até o Amapá com a equipe de pesquisadores. Uma das descobertas foi a forma de o povo amapaense se autodeclarar afetivamente como tucuju. “Assim como tem paulista, carioca, potiguar, capixaba, quem nasce derivado do Amapá é tucuju”, contou.
“Cada momento do desfile da Mangueira mostra o Mestre Sacaca encantado pela própria natureza e pela própria identidade tucuju. Ele vai nos apresentando cada momento dessa saga que ele próprio nos deixou”, indicou.
O enredo foi dividido em cinco setores. Cada um fala de um tipo de encanto tucuju para apresentar o envolvimento de Mestre Sacaca com a cultura afro-indígena. O primeiro é o encanto da floresta na região do Oiapoque, mostrando o extremo norte do Brasil.
O segundo momento vai trazer o encanto dos rios, quando o Mestre Sacaca mostra as experiências dele ao perambular muito pelos rios amazônicos, onde conheceu as populações ribeirinhas convivendo com tribos indígenas e com quilombos.
“No Amapá, tem muitos quilombos como herança da escravização no Brasil. A grande estrada amazônica é o rio, a principal rota de fluxo de pessoas e mercadorias na Amazônia são os rios, então, o segundo encanto tucuju que Sacaca nos apresenta são os rios”, informou o carnavalesco.
Na sequência é o setor do encanto da cura, com as ervas, os chás e as garrafadas de cura. “Toda a tradição de Sacaca com as ervas para fins medicinais”, apontou.
O quarto é o encanto dos tambores, mostrando a ligação do Mestre com a cultura amapaense. Neste setor estão a dança afro-indígena sairé, o marabaixo, principal manifestação negra do Amapá, as escolas de samba que também existem no estado e a participação dele, por mais de 20 anos, como Rei Momo.
O último setor é o encanto da natureza eterna, a eternidade, quando Mestre Sacaca se eterniza por amar a Amazônia, e a Amazônia se reconhece eterna por revelar a identidade do Sacaca em cada elemento do Amapá, conta Sidnei. Em uma espécie de simbiose, o enredo propõe não haver distinção entre Sacaca e o Amapá.

Fonte: O Dia

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