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Agência ambiental dos EUA passa a desconsiderar custo de perda de vidas por poluição do ar

27/01/2026

Autoridades governamentais dos Estados Unidos há muito tempo lidam com uma questão que parece ser do domínio dos filósofos: qual é o valor de uma vida humana?
Sob administrações tanto democratas quanto republicanas, a resposta tem sido na casa dos milhões de dólares. Quanto maior o valor, mais o governo tem exigido que as empresas gastem em suas operações para evitar uma única morte.
Mas, pela primeira vez, na Agência de Proteção Ambiental (EPA na sigla em inglês), a resposta é efetivamente zero dólares.
Na semana passada, a EPA parou de estimar o valor monetário das vidas salvas ao estabelecer limites para dois dos poluentes atmosféricos letais mais difundidos, material particulado fino e ozônio. Em vez disso, a agência está calculando apenas os custos para as empresas de cumprirem com as regulamentações contra poluição.
"O governo Trump está dizendo, literalmente, que atribui valor zero à vida humana", disse Marshall Burke, economista ambiental da Universidade Stanford. "Se seu filho respira poluição do ar de uma usina de energia ou fonte industrial, a EPA está dizendo que só se importa na medida em que a limpeza dessa poluição custaria ao emissor."
É uma mudança drástica na forma como o governo pesa os custos de controlar a poluição do ar perante os benefícios para a saúde pública e o meio ambiente. Isso pode levar a controles mais frouxos sobre poluentes de usinas de energia a carvão, refinarias de petróleo, siderúrgicas e outros locais industriais em todo o país, resultando em ar mais sujo.
E parece arquivar uma ferramenta poderosa, conhecida como valor de uma vida estatística, que as agências têm usado por décadas nas análises de custo-benefício que justificam novas regulamentações.
A EPA tem usado a ferramenta para atribuir um valor em dólar às vidas salvas pelas regras de ar limpo, fazendo com que os benefícios dessas regras superem os custos em uma proporção de pelo menos 30 para 1. Isso permitiu defender controles de poluição que as empresas, de outra forma, contestariam como muito caros.
Outras agências federais usaram a métrica para justificar regulamentações que afetam desde recursos de segurança em carros até rótulos de advertência contra câncer em maços de cigarros.
Brigit Hirsch, porta-voz da EPA, disse em email que a agência ainda estava considerando os efeitos na saúde do material particulado fino e do ozônio, mas não estava mais atribuindo a eles um valor em dólar nas análises de custo-benefício.
"Não estamos atribuindo um valor em dólar a esses impactos no momento", disse ela. "Isso não significa que a EPA esteja ignorando ou desvalorizando-os."
Hirsch não comentou se a agência deixaria de usar o valor de uma vida estatística para todas as regulamentações além das regras de ar limpo. "Dizer que não estamos atribuindo um valor em dólar aos efeitos na saúde é como dizer que não estamos colocando uma etiqueta de preço no ar limpo ou na água potável segura. Dólares e centavos não definem seu valor."
Nos últimos 30 anos, a EPA fixou o valor de uma vida estatística em cerca de US$ 11,7 milhões. Embora especialistas tenham recomendado aumentar o valor, a agência atualizou a métrica apenas para considerar a inflação e o crescimento dos salários.
O valor de uma vida estatística é um assunto sensível em Washington. Valores mais baixos levaram a protestos da sociedade civil, enquanto valores mais altos atraíram reclamações de uma variedade de indústrias, incluindo produtores de petróleo e gás, caminhoneiros e fabricantes de brinquedos.
Alguns críticos levantaram objeções morais ao uso da ferramenta, dizendo que uma vida humana não tem preço. Mas os defensores dizem que seu uso ajudou a prevenir centenas de milhares de mortes prematuras por poluição do ar, que mata mais americanos anualmente do que acidentes de veículos.

Termine de ler esta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

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