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Campos de altitude estão desaparecendo no sul do Brasil, até mesmo dentro de áreas protegidas

08/01/2026

A floresta de araucárias e os campos de altitude formam um dos mosaicos ecológicos mais emblemáticos da mata atlântica. Eles abrigam biodiversidade única e fornecem serviços ecossistêmicos importantes.
Além disso, sustentam modos de vida que favorecem a conservação: o manejo de fogo, a criação extensiva de gado e a coleta de pinhão, práticas que ajudaram a moldar a paisagem atual e contribuem na manutenção dos campos naturais. Mesmo assim, seguem entre os ambientes mais ameaçados do Brasil.
Campos de altitude são ecossistemas que ocorrem "dentro" da mata de araucárias. Ao contrário da "mata", cuja característica é a presença de árvores de grande porte (especialmente a araucária) e a formação de uma cobertura caracterizada pela junção de inúmeras copas (chamada dossel), os campos são dominados por gramíneas e arbustos. Contudo, mais de 300 espécies vegetais são exclusivas deste ecossistema.
Os campos ocorrem sobretudo no sul do Brasil, em áreas de invernos acentuados e de maior elevação em relação ao nível do mar (entre 800 e 1.800 m). A floresta com araucárias, dominada pela árvore símbolo do Paraná, já perdeu mais de 95% de sua área original. Os campos de altitude também foram amplamente convertidos para agricultura, pastagens plantadas e silvicultura.
Em um estudo de 2024, os autores revisitaram dados de satélite e constataram: temos apenas 1,2 milhão de km² (ou apenas 4%) de remanescentes dessa outrora majestosa floresta preservada de araucárias. Deste total, apenas 13,5 % estão dentro de alguma unidade de conservação. É muito pouco.
Quão eficazes são as unidades de conservação na preservação desses ecossistemas? Para responder a essa questão, desenvolvemos um estudo que mostrou que a ameaça não apenas segue ativa, mas avança até mesmo dentro de unidades de conservação criadas para proteger esses ecossistemas.
Nossos resultados revelaram que áreas protegidas florestadas da mata de araucárias estão relativamente estáveis nos últimos 35 anos (1985-2021). No entanto, os campos de altitude continuam sendo convertidos e degradados.
Analisamos uma área que compreende três unidades de conservação (UCs) federais extremamente representativas na região sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina. Elas são: o Parque Nacional das Araucárias, a Estação Ecológica da Mata Preta e o Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas, criadas em 2005 e 2006, nos municípios de Palmas (PR), General Carneiro (PR), Abelardo Luz (SC), Passos Maia (SC) e Ponte Serrada (SC). Essas três UCs englobam mais de 35 mil hectares do mosaico florestas-campos.
Um dos principais objetivos das UCs é o de barrar a expansão agrícola e o desmatamento, comuns ao processo econômico da região sulina. E a criação dessas unidades trouxe avanços —mas não para todos os ecossistemas ávidos por proteção.
Nosso estudo analisou 36 anos de mapas anuais de uso da terra produzidos pelo MapBiomas, uma rede global e multi-institucional que monitora as mudanças na cobertura e uso do solo. Avaliamos o interior dessas três UCs e três zonas de entorno, de 500 metros a 10 quilômetros além de seus limites.

A pergunta era simples: essas áreas protegidas conseguiram frear a perda de vegetação nativa, além de atenuar o impacto em seus entornos?

A resposta que encontramos foi: depende do ecossistema analisado. Florestas com araucária foram preservadas, o que é muito bom. Já os campos de altitude sentiram um impacto maior.
Nas duas unidades de conservação de proteção integral voltadas à proteção florestal, a situação é positiva. Dentro do Parque Nacional das Araucárias, a perda acumulada de floresta ao longo de 36 anos foi de apenas 1,82% em relação à área total da unidade de conservação. Na Estação Ecológica da Mata Preta, a redução foi de 1,4%.
Em todas as zonas de amortecimento ao redor, porém, a perda foi muito maior. Isso significa que as unidades funcionaram como um escudo contra a expansão agrícola e a silvicultura. As florestas estabilizaram-se após a criação das áreas protegidas, mesmo com fortes pressões no entorno.
Já quando olhamos para o Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas, criado para proteger áreas de campo de altitude, identificamos uma perda de 31% de sua área entre 1985 e 2021. No período após a criação da unidade (2005-2021), a perda do ecossistema passou de 20%.
O dado mais preocupante é este: a perda de campos dentro da área protegida foi maior do que fora dela. A conversão para silvicultura, soja e mosaicos agrícolas foi intensa, especialmente após 2005. Isso indica que a criação da unidade não interrompeu o avanço das atividades produtivas. Pelo contrário, parte da pressão parece ter migrado para dentro da área protegida.
Isso se deu, possivelmente, devido a conflitos fundiários ainda não resolvidos, reduzida eficiência fiscalizatória e conversão ilegal dos campos para outros usos do solo.

Para ler esta matéria toda basta clicar na Folha de S. Paulo

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