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Através de felinos, projeto monitora ameaças ao pampa, bioma menos protegido do Brasil; veja fotos

18/12/2025

Nos vastos campos no sul do Brasil, paisagem que costuma ser representada por trabalhadores rurais, empunhando chimarrão, na companhia de gado e cavalos, e uma linha do horizonte infinita, há um bichinho que não faz parte desse imaginário coletivo, mas que serve como um importante indicador da situação atual de degradação e ameaças ao pampa, o bioma menos protegido proporcionalmente no país.
A espécie em questão é um felino. Diferente de outros que habitam a região, porém, não sobe em árvores diante de riscos e depende exclusivamente dos campos para proteção, caçar alimentos e seguir seu ciclo de vida. O gato-palheiro pampeano, com o pelo entre amarelo e cinza e listras pretas nas patas, costuma pesar 3,8 quilos e é uma das espécies mais ameaçadas de extinção no Brasil.
"Ele está tão ameaçado quanto o pampa ou mais, porque justamente é um felino especialista em campos nativos. Só ocorre ali. Estão transformando o campo nativo em soja e a gente está vendo cada vez menos essa população", diz a bióloga Marina Ochoa Favarini.
Ela é uma das idealizadoras do Felinos do Pampa, projeto vinculado a duas universidades federais — UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e UFPEL (Universidade Federal de Pelotas)— e ao Instituto Pró-Carnívoros.
A iniciativa busca entender a biodiversidade de felinos na região Sul e como eles estão sobrevivendo em meio à degradação do bioma presente em 69% do território gaúcho, único estado brasileiro onde ocorre, além de parte da Argentina e do Uruguai. O Dia do Pampa é celebrado nesta quarta-feira, 17 de dezembro.
Apesar da experiência de cerca de 20 anos dos integrantes com pesquisas envolvendo felinos, o trabalho reunido sob a bandeira do projeto só começou em 2021, impulsionado por uma demanda do Geoffroy´s Cat Working Group, organização internacional voltada a felinos silvestres da América do Sul.
A espécie que batiza a iniciativa é conhecida no Brasil como gato-do-mato-grande, cuja pelagem lembra uma chita em versão pouco maior que um gato doméstico.
"A gente chama felinos de hipercarnívoros, ou seja, eles só se alimentam de carne. Não comem frutos ou outras coisas que complementariam a dieta. E, por serem hipercarnívoros, eles controlam a população das presas e o equilíbrio de um ambiente", explica a bióloga Flávia Pereira Tirelli, outra idealizadora do projeto.
"Eles são guarda-chuvas, porque se a gente proteger essas espécies, predadores topo de cadeia, mais sensíveis à alteração do ambiente, vamos estar protegendo também as presas, as presas das presas, a cadeia como um todo", explica Felipe Bortolotto Peters, também idealizador do grupo.
O pampa registra 7 de 10 espécies de felinos encontradas no Brasil, segundo os pesquisadores: gato-do-mato-grande, gato-maracajá, gato-mourisco, gato-palheiro pampeano, gato-do-mato-pequeno, jaguatirica e puma —esses três últimos mais ocasionais, encontrados junto a área de contato com a mata atlântica.
Até pouco tempo, informações sobre essas populações eram escassas. A população do gato-palheiro, por exemplo, não tinha cifra exata, mas uma estimativa de pesquisadores a partir de 2020 chegou a 243 indivíduos maduros (capazes de se reproduzir) e 809 na população total existente no Brasil. Nos países vizinhos, esse dado não é conhecido.
O cenário, porém, tem mudado nos últimos anos graças ao acesso maior à tecnologia.
Para coletar dados, o projeto gaúcho conta com armadilhas fotográficas e coleiras de rastreamento. Se antes os sensores das câmeras eram muito sensíveis, podendo ser disparados com uma mudança de vento, agora há mais precisão. Como comparação, Peters conta que, enquanto nos últimos quatro anos eles chegaram a cerca de 50 registros de gato-palheiro, nos quatro anos anteriores, o total havia sido de 3 casos.
O salto, porém, não indica crescimento da população de animais, cujo avistamento é cada vez mais raro em campo. "Conforme a área de lavouras aumenta, o registro do gato-palheiro entra em declínio. É o bicho mais raro, não tem mais ambiente para ele", explica o biólogo.

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