
04/12/2025
As águas da costa leste do Brasil, que abrange a Bahia e o Espírito Santo, têm a maior concentração de microplásticos em todo o litoral do país. É o que aponta um estudo publicado nesta quarta-feira (3) na revista científica Marine Pollution Bulletin, ao qual a Folha teve acesso com exclusividade.
O artigo é resultado do projeto MicroMar, liderado pelo Instituto Federal Goiano e financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O trabalho envolveu nove expedições científicas e mobilizou cerca de 50 pesquisadores, que percorreram mais de 7.500 km ao longo do litoral, abrangendo os 17 estados banhados pelo oceano Atlântico.
Os cientistas coletaram 4.134 amostras de água em 1.024 praias, de abril de 2023 a abril de 2024. Os dados foram agrupados em cinco macrorregiões costeiras: amazônica equatorial, nordeste, leste, sudeste e sul.
A costa leste do Brasil, que vai da baía de Todos-os-Santos, em Salvador, até a foz do rio Piraquê-Açu, em Aracruz (ES), tem 16,87 partículas de microplástico por litro de água, em média. A concentração é praticamente igual à soma das outras quatro regiões.
O litoral nordeste é o segundo mais poluído (6,95 partículas por litro), seguido pelo sudeste (5,25) e sul (3,36). As águas da amazônia equatorial apresentaram a menor contaminação (1,29). Juntas, as quatro regiões têm 16,55 fragmentos de microplásticos por litro.
"Podemos afirmar com segurança que a costa leste é um hotspot de concentração, porque sua média por litro é excepcionalmente alta", diz o professor Guilherme Malafaia, coordenador do estudo.
O pesquisador afirma que a alta contaminação nesses estados é surpreendente à primeira vista. "Pelo senso comum, seria razoável esperar que a costa sudeste, com forte industrialização, altíssima densidade populacional e grandes hotspots conhecidos, como baía de Guanabara, Baixada Santista e estuário do Paraíba do Sul, apresentasse as maiores concentrações de microplásticos na água."
O estudo oferece algumas explicações para a taxa elevada de poluentes na região leste, como a influência de áreas turísticas, o despejo de esgoto e a proximidade de rodovias, já que o atrito dos pneus com o asfalto gera partículas de plástico.
Os governos da Bahia e do Espírito Santo não responderam aos questionamentos da reportagem.
No extremo oposto, a maior distância de infraestruturas urbanas e a influência das correntes dos rios ajudam a justificar a baixa poluição nas águas da amazônia.
As costas nordeste e sudeste têm valores intermediários e combinam pressões relevantes, como descarte de esgoto, resorts, e outras instalações costeiras. Porém, tempestades e dinâmicas oceânicas favorecem o espalhamento das partículas ao longo da margem.
Outras características do mar influenciam a dispersão dos poluentes, como o pH, a salinidade e a presença de clorofila, molécula produzida por algas. Esses parâmetros interferem no "afundamento" dos microplásticos na coluna d’água —como a pesquisa se baseou em amostras coletadas na superfície, não foi possível avaliar a concentração em profundidades maiores.
"Regiões mais poluídas tendem a concentrar partículas maiores e mais degradadas, indicativas de forte fragmentação e retenção local, enquanto regiões menos poluídas apresentam partículas menores e mais compactas, compatíveis com maior exportação e menor acúmulo superficial", explica o coordenador do estudo.
Leia a reportagem completa clicando na Folha de S. Paulo
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