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Expansão agrícola ameaça macaco exclusivo do Brasil

07/10/2025

A Caatinga está passando por rápidas transformações que podem selar o destino do guigó-da-Caatinga – um macaco nativo, encontrado apenas no nosso país. A expansão agrícola, a degradação florestal e outras alterações no uso da terra estão entre os principais fatores que colocam em risco a sobrevivência da espécie, alerta um estudo publicado na revista Regional Environmental Change. A pesquisa foi conduzida em parceria pelas Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Sergipe (UFS), além do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os resultados reforçam a urgência de medidas de conservação e planejamento para evitar que o guigó desapareça, já que ele está oficialmente classificado como Criticamente em Perigo de extinção.
Para compreender as mudanças no ambiente desse primata ao longo das últimas décadas, os cientistas analisaram 84 paisagens distintas: 46 onde o animal foi registrado e 38 onde sua presença não foi constatada. Essas áreas foram definidas a partir de registros de ocorrência do guigó, cruzados com mapas de uso e cobertura do solo elaborados pela plataforma MapBiomas. A partir desses dados, os pesquisadores acompanharam, ano a ano, a transformação do território, identificando se era ocupado por florestas, pastagens ou agricultura. Esse cruzamento de informações permitiu avaliar como, ao longo de 37 anos, o avanço das atividades humanas afetou o habitat do animal.
Os números revelam um quadro preocupante: um quarto das florestas que faziam parte da área de ocorrência da espécie foi convertido em pastagens. No período analisado, a Caatinga perdeu cerca de 17% de suas áreas florestais, sendo que 10% do que existia em 1985 virou pasto. Para a pesquisadora Bianca Guerreiro, principal autora do estudo, o impacto é grave. “Os guigós precisam das matas e árvores para obter recursos, como alimentação e abrigo, e também para se locomoverem”, explica.
Atualmente, aproximadamente 54% da região ocupada pelo guigó-da-Caatinga já está dominada por agricultura ou por terrenos sem vegetação. Em 1985, as pastagens cobriam 30% da área; em 2021, chegaram a 42%, um aumento de 40%. Essa expansão, destacam os autores, representa vários riscos para a espécie: além de fragmentar seu habitat em pequenas manchas isoladas, a presença do gado compacta o solo, dificulta a infiltração de água e atrapalha o crescimento de novas plantas. O pisoteio sobre pequenas mudas também compromete a regeneração das florestas, o que ameaça sua manutenção a longo prazo.
A fragmentação do território traz ainda outra consequência: pode estar forçando os guigós a se concentrarem em espaços cada vez menores. Em um estudo complementar já submetido para publicação, os autores verificaram que, em áreas mais desmatadas dentro de regiões agrícolas, a densidade populacional do primata é maior – ou seja, mais indivíduos estão restritos a porções reduzidas de floresta. “Isso sugere que os grupos estão adensados em fragmentos isolados, provavelmente em função da baixa conectividade da paisagem”, afirma Guerreiro. “Esse confinamento traz várias consequências, como o aumento da competição por recursos, a redução da variabilidade genética e maior vulnerabilidade a distúrbios, como um incêndio, um surto de doença ou mesmo a expansão de atividades humanas em um fragmento”, acrescenta.
Outro dado chama a atenção: em 2021, menos de 9% do bioma estava sob alguma forma de proteção legal. No mesmo período, o guigó-da-Caatinga foi oficialmente reconhecido, tanto pelo governo brasileiro quanto pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), como espécie Criticamente em Perigo de extinção. Para Guerreiro, pesquisas como esta podem apoiar políticas públicas e orientar estratégias de preservação. “Esses estudos ajudam órgãos governamentais e organizações não governamentais a identificar áreas prioritárias para monitoramento e mitigação da perda de biodiversidade, além de guiar a recuperação florestal e a criação de novas áreas protegidas”, explica.
A pesquisadora destaca ainda que é fundamental buscar formas de harmonizar a produção agrícola com a preservação da natureza, “o que pode ser incentivado por programas de formação técnica e subsídios específicos e direcionados”, conclui. Ela lembra que a equipe já conduz novas pesquisas para aprofundar o conhecimento sobre o guigó e sua relação com a Caatinga, na esperança de abrir caminhos para a proteção efetiva desse primata tão singular.

Fonte: CicloVivo

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