
01/04/2025
No início do ano, o filho da designer de interiores Cristiane Goulart, moradora da Rua Dom Bosco, no Recreio, chegou em casa apavorado após se deparar com um jacaré na via. Kayke Goulart, de 19 anos, voltava a pé da academia, na Avenida das Américas, a um quilômetro de distância de sua residência, quando decidiu correr ao ver o animal saindo de um brejo. No mês passado, foi a vez de a própria mãe se assustar ao ver, pela primeira vez, em dois anos e meio residindo no local, um réptil andando dentro do condomínio enquanto ela manobrava o carro. Cenas como essas, com a espécie dividindo espaço com os seres humanos no meio urbano, têm se tornado cada vez mais corriqueiras na região nos últimos anos. E, alertam especialistas, vão se tornar ainda mais frequentes, em consequência da progressiva supressão do seu habitat.
— Minha rua, que fica atrás do Colégio Notre Dame, ainda é meio rural. Foi pavimentada há uns dois anos e tem muitos condomínios de casas sendo construídos. As laterais da via, em vez de calçadas, são formadas por pequenos brejos. Meu filho estava passando ao lado do meio-fio quando o jacaré deu um pulo na água, bem ao lado dele, que gritou e ficou desesperado — relata Cristiane. — Depois que começaram a aterrar um pedaço bem grande da rua, em janeiro, para a construção de um novo residencial, o meu condomínio está sendo invadido por bichos. Dos 30 terrenos loteados no meu condomínio, só umas sete casas foram construídas. Ainda há muito mato e uns buracos no muro, que é por onde os jacarés têm entrado. Não deixo nem meus filhos brincarem na rua, com medo.
O Corpo de Bombeiros informa que, de 1º de janeiro ao último dia 23, resgatou 12 jacarés na Barra, um a menos que no mesmo período do ano passado. O Instituto Jacaré, que há 24 anos faz pesquisas e monitoramento da única espécie presente no Rio, a jacaré-de-papo-amarelo, estima resgatar uma média de cinco indivíduos por semana na Barra e em bairros vizinhos, geralmente em empreendimentos imobiliários dos mais diversos tipos, incluindo condomínios residenciais e empresariais.
— A aparição dos jacarés em área urbana é algo que não só se torna comum, como vai ficar cada vez mais rotineira, à medida que a cidade avança sobre o ambiente natural deles. Toda a região do entorno do complexo lagunar de Barra e Jacarepaguá é de áreas originalmente alagadas, e, portanto, habitat da espécie. Conforme esse pântano vai sendo destruído pelo crescimento urbano acelerado e dando lugar a construções, é natural que os jacarés apareçam com mais frequência. Espremidos num espaço cada vez menor, eles vão buscar uma válvula de escape, um ambiente novo e mais favorável. Nesse caminho, acabam pegando as ruas — explica o biólogo e doutor em ecologia Ricardo Freitas Filho, fundador da entidade.
Em parte, esse deslocamento, intensificado a partir de janeiro, se justifica ainda pelo verão atípico que a cidade enfrentou, com um longo período sem chuva e lagoas mais vazias. Assim, o conflito entre os machos, principalmente, que são mais territorialistas, aumenta, e eles tendem a buscar outros territórios. É o que observa o biólogo e veterinário Jeferson Pires, responsável pelo Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Cras) da universidade Estácio, em Vargem Pequena, que trata jacarés e outras espécies resgatadas com ferimentos ou algum tipo de trauma. De acordo com a instituição, uma média de 20 a 30 répteis são atendidos por ano no local.
— Muitos jacarés chegam aqui após terem sido vítimas de atropelamento. E, com o tempo seco, muitos têm vindo magros e desnutridos. Fazemos um atendimento de emergência, incluindo exames e procedimentos cirúrgicos. No momento, temos dois internados, que chegaram este mês. Um deles teve traumatismo craniano, com fratura de diversos ossos da região, após um veículo passar por cima de sua cabeça. Colocamos um acesso venoso para injetar uma medicação a fim de diminuir o edema cerebral, mas ele está em estado grave e corre alto risco de morte. O outro chegou com sinais de sufocamento, porque tinha uma corda enrolada no pescoço. Neste caso, estamos só esperando cicatrizar a ferida para encaminhá-lo para a soltura. Em fevereiro, tivemos um que morreu, depois de chegar muito magro e com uma possível infecção respiratória — detalha.
Na hipótese de encontrar um jacaré, a Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) orienta a acionar a Patrulha Ambiental, pela Central 1746, da prefeitura, ou o Corpo de Bombeiros. Para quem tem medo do animal, o veterinário tranquiliza: o papo-amarelo não oferece risco às pessoas, desde que elas não se aproximem e não tentem manter contato.
— Todo ser vivo terá sua área de segurança para não se sentir ameaçado. O mesmo vale para o jacaré. Se você se aproximar, a primeira reação dele será tentar fugir, mas, se não houver essa possibilidade, ele vai agir no instinto de se defender. Jamais um jacaré vai sair da lagoa e andar alguns metros para atacar uma pessoa ou animais domésticos — esclarece.
A rota de deslocamento dos jacarés vai além das ruas. A espécie tem despertado curiosidade ao ser avistada também no mar da região, como aconteceu no mês passado na altura do Quebra-mar. Segundo especialistas, uma das maneiras pelas quais o animal pode chegar à água salgada é sendo empurrado durante enxurradas causadas por fortes chuvas.
— Nesse caso, os bichos duram no máximo três dias e acabam morrendo de desidratação, por conta do sal. Depois desse período, começam a encalhar jacarés mortos nas praias — explica Jeferson Pires.
Estudiosos avaliam que, com o agravamento da degradação do ecossistema do jacaré, a tendência é a extinção da espécie no Rio. Contribui para isso o fato de haver uma superpopulação de machos no município, o que impacta o índice de reprodução.
— Os resgates e o manejo da espécie são muito malfeitos pelos órgãos públicos, colocando em risco sua sobrevivência e sua estrutura populacional. Geralmente, os animais que buscam novo território para desenvolvimento são jacarés machos. E indivíduos encontrados em vários lugares do Rio de Janeiro, após serem resgatados, são levados, de forma errônea, para as lagoas de Jacarepaguá. Como há muitos na região, na cabeça das pessoas aquele é o lugar certo para soltá-los. Como consequência, porém, você começa a ter um excedente de machos na região — analisa Ricardo Freitas Filho. — Já temos dados que mostram que a população de jacaré-de-papo-amarelo está declinando na cidade do Rio, ou seja, em vias de extinção local.
Em tese de doutorado de 2013, Freitas já alertava para a redução da população de jacarés em toda a região de Jacarepaguá, Barra da Tijuca e Recreio devido ao crescimento da população dos três bairros e a consequente supressão do seu habitat. O desequilíbrio entre machos e fêmeas, esclarece o biólogo, se deve ainda às altas temperaturas.
— O ovo do jacaré não nasce geneticamente determinado como macho ou fêmea. Isso acontece nos 19 primeiros dias de incubação do ninho, sob influência de aspectos como temperatura e oxigenação. Mais calor gera mais jacarés machos — explica. — Apesar de hoje olharmos e pensarmos “nossa, tem jacaré pra caramba”, esa impressão acontece porque eles estão numa área menor e o número de bichos ainda é grande, mas talvez nossos filhos ou netos já não tenham essa imagem.
O veterinário e biólogo Jeferson Pires também manifesta preocupação com o progressivo extermínio da espécie.
— Infelizmente, tudo caminha para a eliminação dos jacarés. O ambiente hostil reduz a oferta de comida e a poluição sistemática têm causado intoxicação nesses animais. Recebemos muitos com plástico no estômago. Eles se alimentam também de peixes, que estão mais escassos no complexo lagunar. O que mais se tem hoje é tilápia, uma espécie invasora. Ou seja, a diversidade diminuiu. Isso acaba impactando a população de jacarés, que é resistente, mas tudo tem limite — alerta.
Biólogo que atua no sistema lagunar da região há mais de 30 anos e morador da Barra, Mario Moscatelli acompanha o drama dos jacarés e afirma que a espécie é essencial para o equilíbrio da cadeia alimentar.
— Espero que sejamos suficientemente inteligentes para evitar a perda desse animal. Se não há jacarés, o que vira problema são as capivaras, a sua presa. Esse negócio de cadeia alimentar é algo que funciona numa sintonia muito fina. Quando se tira um elo dessa equação, atrapalha-se todo o resto — observa. — A supressão de ambientes, além de afetar animais de maior porte, atinge espécies de anfíbios e aves, que são potenciais predadores de pragas que afetam o ser humano, como mosquito, escorpião e carrapato.
Procurada para falar sobre as medidas para proteger os jacarés da região, a prefeitura disse que esta é uma atribuição do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Este, por sua vez, afirma que faz ações pra preservação da fauna dentro das unidades de conservação do estado e que aquelas situadas no entorno do complexo lagunar são de responsabilidade do município. A equipe do GLOBO-Barra procurou novamente a prefeitura, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.
Imagens inusitadas de répteis nas águas salgadas do mar da Barra da Tijuca ganharam repercussão recentemente nas redes sociais. Num dos casos, ocorrido no dia 23 de fevereiro, o animal foi resgatado na Alfavaca, uma das Ilhas Tijucas, após passar pelo Quebra-mar. Um dos responsáveis pela operação foi o pescador Marcos dos Santos, de 48 anos. Ele sempre pesca do início até o fim da tarde, e conta que voltava de mais um dia normal quando, por volta das 17h30, avistou o bicho à deriva.
— Eu estava passando de barco quando vi o jacaré emergindo das profundezas. Sabia que, se continuasse naquela água salgada, ele não iria conseguir sobreviver. Eu não poderia deixá-lo naquela situação. Então, eu e outro amigo pescador que estava comigo resolvemos fazer as manobras de resgate. Com toda a calma, laçamos e imobilizamos o animal, que estava exausto, e o colocamos na embarcação, onde o deixamos alguns minutos parado para baixar seu nível de estresse. E fomos jogando água potável em cima dele. Depois, já em terra, acionamos o Corpo de Bombeiros — relata Marcos.
De acordo com o pescador, a ação durou cerca de 20 minutos. No vídeo que circulou pelas redes sociais, os amigos aparecem carregando o jacaré nos ombros. De acordo com Santos, o animal tinha pelo menos dois metros e pesava cerca de 80 quilos. A coragem para lidar com a espécie veio da experiência, destaca.
— Sou da terceira geração de pescadores da minha família. Vivo na Praia dos Amores desde antes da urbanização da Barra. Sempre tive contato com todo tipo de animal aqui, incluindo o jacaré. Estou acostumado. Só que a população da cidade cresceu, e ele está tendo que sair do seu habitat natural — observa. — Para mim, esse resgate foi natural. Já resgatei outros jacarés. Mas foi muito gratificante salvar um animal que não sobreviveria no mar.
Fonte: O Globo

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