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Mudanças no clima obrigaram povos antigos a se deslocar pelo território brasileiro

27/03/2025

Há 11,5 mil anos, o planeta Terra deixava de enfrentar um período glacial. Com temperaturas mais altas, os humanos começaram a povoar todos os cantos. O cenário, no entanto, não era de estabilidade completa do clima. Eventos climáticos extremos e abruptos causavam derretimentos de geleiras, quebras de lagos glaciais, atividades vulcânicas, períodos de seca e de umidade, de frio e de calor alternados, que afetaram a vida de comunidades antigas que viveram no Brasil.
Um artigo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) aponta que muitos destes povos optaram por abandonar seus territórios de origem em vez de tentar se adaptar às mudanças climáticas. O trabalho foi publicado em fevereiro na PLoS ONE.
É importante destacar, porém, que as alterações no clima a que os cientistas se referem, de milhares de anos atrás, não são como as que estão acontecendo no século 21.
"As mudanças climáticas de hoje são promovidas pelas nossas economias, causadas por ações humanas, enquanto os impactos enfrentadas pelas populações durante o Holoceno não eram causados pelas alterações que elas faziam diretamente no sistema climático planetário, mas sim resultado de fenômenos naturais", explica Leonardo Troiano, arqueólogo sem relação com a pesquisa recém-publicada e coordenador do Centro Nacional de Arqueologia do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Entre as causas das mudanças no clima que afetaram os povos antigos estão mudanças nos padrões de correntes dos oceanos, atividades vulcânicas, derretimentos de geleiras, mudanças de órbita do planeta, entre outros fenômenos. Na pesquisa, os cientistas classificam como mudanças climáticas rápidas (RCC, na sigla em inglês) aquelas que obrigaram os brasileiros a se deslocar.
"São alterações perceptíveis dentro da escala de tempo humana, tão abruptas e rápidas que as pessoas estavam sentindo, não é em uma escala geológica", afirma o arqueólogo Astolfo Araujo, líder do estudo, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e coordenador do Levoc (Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente). "A imprevisibilidade do clima já afetava diretamente os humanos, mesmo aqueles que não dependiam da agricultura."
No início dos anos 2000, pesquisadores do campo da arqueologia começaram a desenhar a hipótese de que o abandono de território em algumas regiões do Brasil decorria de um período de seca bastante prolongado. A ausência de vestígios humanos nestas regiões, que compreendem parte do Centro-Oeste, do Sudeste (especialmente Minas Gerais), parte da Bahia e da Amazônia, foi chamada de "hiato do arcaico" entre os especialistas.
Há quase uma década, Araújo publicou, com outros pesquisadores do Levoc, um artigo com dados paleoambientais que apontavam eventos de seca como a principal causa das imigrações. O avanço das pesquisas e da tecnologia, no entanto, permitiu a descoberta de dados mais recentes que sugerem uma explicação mais detalhada sobre as mudanças no clima entre 8.000 e 4.000 anos atrás que podem ter influenciado as andanças de povos antigos.
Para conduzir a pesquisa, foram usados bancos de dados de sítios arqueológicos criados pelos próprios autores nas últimas décadas de estudos, além de informações do primeiro mapa interativo de sítios arqueológicos indígenas do estado de São Paulo. O grupo também realizou estudos com dados paleoambientais, com indicadores como presença de partículas de carbono e pólen de mandioca e milho. Para organizar as informações, o mapa do Brasil foi dividido em oito regiões.

A leitura desta reportagem pode ser concluída na Folha de S. Paulo

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