
28/11/2023
O Brasil tem a vantagem de não precisar investir em tecnologias onerosas para cumprir sua meta net zero até 2050, estipulada no Acordo de Paris, porém as políticas atuais não são suficientes. É o que indica um novo estudo liderado pela Universidade de Oxford. O resultado aponta que soluções baseadas em natureza (SbN), além de significativamente menos custosas, podem mitigar cerca de 80% da meta brasileira. O resultado seria uma redução média de 781 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, pelos próximos trinta anos – representando uma vantagem econômica na discussão global de net zero.
Realizado por treze autores de oito instituições lideradas pela Universidade de Oxford, o estudo quantifica políticas de uso da terra no Brasil. Os pesquisadores descobriram, por exemplo, que com a implementação do Código Florestal, sem ações adicionais, haveria uma redução das emissões de gases de efeito estufa de 38% em 2050. Ou seja, apesar de importante para a redução das emissões brasileiras, o número está aquém da meta net zero, que exige a eliminação total das emissões.
O estudo então propõe mais investimentos e esforços em SbN, como a eliminação do desmatamento tanto ilegal quanto legal e a restauração da vegetação. Desta forma, o Brasil garantiria uma situação de benefícios múltiplos: alcançaria as metas do Acordo de Paris, incluindo a meta net zero, mitigaria as mudanças climáticas com eficácia, e não precisaria de soluções de engenharia onerosas, como bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS), pelos próximos vinte anos.
Outra consequência benéfica do investimento em SbN é a manutenção e provisão dos recursos naturais fornecidos pela biodiversidade, base para movimentar a economia nacional.
“O controle do desmatamento e a restauração da vegetação nativa estão prontos para serem implementados imediatamente a um custo relativamente baixo quando comparados a soluções de engenharia como o BECCS. Isso dá ao Brasil uma vantagem comparativa sobre outros países”, afirma a Dra. Aline Soterroni, principal autora do estudo.
Em entrevista à BBC, a pesquisadora exemplificou agroflorestas, agricultura regenerativa e manejo sustentável como soluções baratas encontradas na própria natureza.
Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coautor do estudo, aponta insegurança no processo de captura de carbono.
“Soluções baseadas na natureza, principalmente o desmatamento zero e a restauração da vegetação nativa, são o caminho a percorrer neste sentido, uma vez que a implantação de tecnologias de emissões negativas será demasiado dispendiosa e, mais importante, demasiado arriscada, uma vez que não foi comprovado ainda que estas tecnologias funcionam em larga escala”, diz.
Apesar da atualização oficial recente da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, o país ainda não apresentou um plano detalhado para se tornar net zero no longo prazo. Os pesquisadores apelam para que soluções baseadas na natureza sejam representadas de forma holística nos compromissos climáticos nacionais.
“Há uma lacuna política entre a atual ambição climática e a implementação da política climática no Brasil, impulsionada pela conversão de ecossistemas nativos ricos em carbono e biodiversos. O Brasil abriga cerca de 20% das espécies do mundo, portanto a conversão contínua dos ecossistemas ameaça a integridade de toda a biosfera. É muito importante apoiar o Brasil nos seus esforços para fortalecer, aplicar e ir além das leis existentes para eliminar o desmatamento ilegal e legal”, reforça Nathalie Seddon, professora de Biodiversidade e diretora fundadora da Agile e Nature-based Solutions Initiatives.
O estudo Nature-based solutions are critical for putting Brazil on track towards net zero emissions by 2050 foi publicado na revista acadêmica Global Change Biology e está disponível no CicloVivo
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