
21/11/2023
Se não bastasse a temperatura recorde, um número extraordinariamente alto de raios no fim de semana fez deste novembro um dos períodos de clima mais anômalo e extremo da história da cidade do Rio de Janeiro. Na noite de sábado passado, enquanto fãs de Taylor Swift decepcionados pelo cancelamento do show e atormentados pelo calor, deixavam o Engenhão, cinco raios caíam a cada minuto na cidade. No domingo, um homem morreu fulminado por um raio na Pedra da Gávea.
Com isso, 2023, que ainda não acabou, já iguala 2013 como o ano com o maior número de mortes por raio da cidade. São três, parece pequeno, mas é muito raro morrer vítima de um raio, uma probabilidade estimada em menos que 1 para 1 milhão. Essas descargas elétricas causam, sobretudo, prejuízos econômicos.
De 17h às 21h do sábado, dia 18, uma tempestade despejou nada que 1.255 raios no município. O número considera apenas o pico do temporal e foi calculado, a pedido GLOBO, pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que monitora oficialmente os raios no Brasil.
O total do dia ainda está em análise, mas o coordenador do ELAT, Osmar Pinto Júnior, diz que é maior e pode constituir, possivelmente, um recorde para o mês e mais uma das anomalias de um ano de clima extremo.
O cientista explica que os meses de maior ocorrência de raios na cidade do Rio de Janeiro são janeiro, fevereiro e março, mais úmidos e, por isso, sujeitos a temporais do que novembro. O recorde para a cidade do Rio de Janeiro é de 4.003 descargas elétricas em 15 de fevereiro de 2015.
— Recorde ou não é uma anomalia perigosa, um número extremamente alto de raios fora de época. Novembro tem tempestades, mas elas não costumam ter essa magnitude. Infelizmente, como todas as previsões indicam que o calor seguirá, os próximos meses podem ter tempestades elétricas ainda piores — afirma Osmar Pinto Júnior.
A tempestade de sábado não teve muita chuva — o sistema de alta pressão que gerou a onda de calor da semana passada sugou muito de sua umidade. Mas o calor acumulado na atmosfera gerou ventos fortes e uma colossal tempestade elétrica.
A queda de raios pode afetar a rede elétrica e de telecomunicações. Osmar Pinto Júnior explica que os raios danificam os equipamentos de telecomunicações e prejudicam os sinais de internet e telefonia.
— As pessoas lembram das falhas de energia, pois raios podem atingir postes e redes elétricas. Mas as telecomunicações são muito vulneráveis e duramente afetadas e muitos dos problemas que temos com internet e celular se devem, muitas vezes, em demora nos reparos de equipamentos atingidos — destaca o cientista.
A tempestade elétrica prosseguiu pelo domingo. O ELAT verificou que sete raios atingiram a Pedra da Gávea entre 11h e 12h da manhã, provável horário em que o guia de turismo Leilson de Souza, de 36 anos, foi atingido e morto. Ele guiava um grupo vindo no Mato Grosso e foi fulminado, segundo postagens de uma das turistas, num trecho conhecido como Cadeirinha.
A Pedra da Gávea tem 842 metros de altura e é altamente exposta a chuvas e tempestades, como as que atingiam o Rio desde o início da manhã de domingo. Osmar Pinto Júnior diz que o caso é um dramático exemplo do risco da exposição a tempestades.
— Nunca devemos ir a lugares expostos em dias de mau tempo e, quando formos pegos de surpresa na rua, é preciso procurar logo abrigo — recomenda.
Ele acrescenta que nem é preciso estar no alto de uma montanha. Estádios como o Engenhão, por exemplo, têm para-raios e eles protegem quem está na arquibancada, mas não quem está no meio do gramado.
— Esses são tempos extremos e precisamos mudar hábitos. Espetáculos ao livre, passeios, tudo isso precisa ser revisto em função da previsão do tempo. Vimos que podem custar vidas — salienta o cientista.
Este ano, o Rio de Janeiro já havia registrado outra anomalia com raios. Agosto bateu o recorde para o período no Rio de Janeiro. Caíram sete vezes mais raios do que o máximo registrado até agora, segundo ELAT, que contabilizou 981 descargas elétricas.
Estudo do ELAT mostrou que em janeiro e fevereiro de 2022 foram registrados no Brasil cerca de 17 milhões de raios. Isso representou um aumento de 29% em relação ao mesmo período de 2021.
Mas tanto em 2021 quanto em 2022 o mundo estava sob efeito da La Niña, menos turbulenta do que o El Niño. O aumento foi atribuído pelo ELAT às mudanças climáticas. Este ano, com as mudanças climáticas combinadas a um El Niño forte, o tempo está mais extremo e a previsão é que um novo recorde será batido, diz o cientista.
Fonte: O Globo
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