
17/10/2023
A ameaça dos microplásticos ao meio ambiente é objeto de estudo em todo o mundo. Soluções para esse problema têm sido consideradas uma emergência para o equilíbrio e sustentabilidade ambiental, para garantir o suprimento de pescado livre desse tipo de contaminação. O Brasil é um dos maiores produtores de plástico do mundo, mas a logística reversa, ou seja, a recepção dos materiais utilizados pelas indústrias para reaproveitamento, ainda é incipiente. Aliada a essa limitação está a falta de hábito da população em fazer o descarte seletivo do lixo doméstico. Apesar dos esforços mundiais para reduzir o volume de plástico descartado no meio ambiente, a produção de descartáveis, principalmente feitos de polímeros criados a partir de combustíveis fósseis, tem sido cada vez maior. O mundo gerou 139 milhões de toneladas métricas de resíduos plásticos de uso único em 2021, segundo a Minderoo Foundation.
“Estamos respirando e comendo plástico”, alerta o pesquisador Igor David da Costa, professor do Departamento de Ciências Exatas, Biológicas e da Terra da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, ao considerar a presença desses resíduos nos peixes, tanto de água doce quanto de água salgada, que posteriormente serão consumidos pela população. Segundo ele, a maioria dos estudos sobre a presença de microplásticos vem sendo feita nos oceanos, destino final de grande parte dos plásticos, mas o problema começa nos rios. Dados indicam que 80% do microplástico encontrado nos oceanos vêm dos rios, e os demais 20% são decorrência principalmente da atividade pesqueira (redes fantasmas e demais equipamentos abandonados no mar) e de material em suspensão na atmosfera.
A pesquisa, realizada pela UFF em parceria com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Universidade Federal de Rondônia (Unir) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) foi realizada no rio Machado, um importante afluente do rio Madeira, com 800 km de extensão e considerado a segunda bacia hidrográfica mais importante do estado de Rondônia. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mais de 50% da bacia do rio Machado foram desmatadas até 2019, para dar lugar a pastagens, lavouras de soja, construção de centros urbanos e indústrias.
Igor David conta que seu trabalho teve início em 2011, quando passou em um concurso público para a Universidade Federal de Rondônia (Unir). Seu estudo abrangeu 24 praias arenosas do rio Machado, em um trecho protegido pela Reserva Biológica do Jaú, com mais de 346 mil hectares, um dos poucos remanescentes florestais da bacia do rio Machado. As coletas realizadas nas praias de água doce ao longo da reserva resultaram em 1082 pequenos peixes de 29 diferentes espécies, com até 10 centímetros de comprimento, característicos de águas rasas, popularmente conhecidos como piabas e acarás. Das 29 espécies totais, 24 estavam contaminadas com microplásticos e dos 1082 indivíduos coletados, 382 (30%) apresentaram microplásticos no organismo.
“São esses pequenos peixes que servem de alimento para os peixes maiores, consumidos pela população ribeirinha e das capitais da região Norte”, lembra o pesquisador, que é doutor em Ecologia e Evolução pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ele esclarece que esse fenômeno é chamado de Biomagnificação, ou seja, acúmulo de substâncias ao longo da cadeia alimentar, e que atinge espécies do topo da cadeia alimentar, incluindo os seres humanos. Atualmente, os microplásticos são uma ameaça mundial à biodiversidade.
As análises foram realizadas a partir do material encontrado no trato digestivo dos peixes, conforme seus hábitos alimentares. Os peixes onívoros (que comem animais e vegetais) e insetívoros (que se alimentam de insetos) possuíam mais microplásticos em praias mais próximas dos centros urbanos e afluentes de rios, enquanto os peixes carnívoros (que se alimentam de outros animais) apresentaram maior quantidade de microplásticos no trato digestivo comparado às demais categorias tróficas.
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