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Botos são deslocados no Amazonas para evitar morte por superaquecimento de água

17/10/2023

A enseada de Papucu, um lugar rico em peixes, bem próximo do porto de Tefé (AM), atrai dezenas de botos vermelhos –os botos cor de rosa, como são popularmente conhecidos– e tucuxis –uma espécie com menor porte. A comida é farta, e os botos aparecem lá invariavelmente.
O último sábado (14) foi o dia de um movimento que nunca havia sido feito, que ninguém da região diz ter ciência de ter presenciado, mesmo que parecido: a retirada dos botos da enseada.
Os cientistas querem os botos vivos, e por isso decidiram deslocar esses animais na enseada de Papucu. Foi ali que, em meio a uma seca severa e histórica na região do médio rio Solimões, com encolhimento agressivo do lago Tefé e transformação da paisagem, a água superaqueceu e bateu quase 40°C.
Quando a água, em processo de vazante, começava a esquentar além do aceitável, morreram os primeiros botos. Em 28 de setembro, dia de recorde da temperatura na enseada, com 39,1°C, ocorreram 70 mortes. Os óbitos de machos, fêmeas, filhotes, jovens e adultos prosseguiram –foram mais de 140 ao todo.
Carcaças eram encontradas pelo lago Tefé. Na linha de frente passaram a atuar pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sediado em Tefé e voltado a atividades de pesquisa e manejo na Amazônia. O instituto tem um grupo de pesquisa de mamíferos aquáticos amazônicos, liderado pela pesquisadora Miriam Marmontel.
Mesmo com a interrupção da mortandade, a situação evoluiu para uma emergência ambiental. Não se sabe a causa das mortes; pesquisadores não descartavam hipóteses como contaminação por patógenos ou toxinas e tinham dificuldades em enviar amostras coletadas para análise em Manaus e São Paulo; o lago é a alma de Tefé e é bastante usado pela população para banho e recreação.
Por isso, o monitoramento dos botos passou a envolver a área de emergência ambiental do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Agentes do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) apoiam as ações.
Passadas duas semanas da mortandade, a hipótese mais provável para o que ocorreu é o superaquecimento das águas do lago Tefé, especialmente na enseada de Papucu.
Pesquisadores notaram que parte dos animais tinha o estômago vazio, apesar da abundância de peixes. É provável que tenham necessitado de um gasto maior de energia para regulação da temperatura corpórea. Esse processo pode ter provocado aumento de pressão sanguínea e alteração cerebral.
"Não se pensava em efeito da temperatura em mamíferos aquáticos", afirma Ayan Fleischmann, pesquisador na área de geociências no Instituto Mamirauá, em referência ao desconhecimento sobre o que ocorreu no Papucu. "Tudo bate com alta temperatura."
Diante das evidências, ninguém envolvido com a operação dos botos, como Fleischmann, quer voltar a presenciar o que ocorreu nos últimos dias de setembro. A própria comunidade local foi impactada pelas mortes desses golfinhos de água doce.
Foi assim que, depois de muita discussão entre os cientistas e servidores envolvidos, chegou-se a uma solução provisória e radical: os botos e tucuxis precisam sair da enseada onde a temperatura bateu os quase 40°C, diante da perspectiva de prolongamento da estiagem –o lago segue descendo, perdendo volume, com baixas de 3 a 6 cm.
Na boca da enseada, estacas de madeira foram instaladas de lado a lado, em formato de V. Uma abertura foi mantida no meio da grade armada, para passagem dos botos.
Com tanta comida no Papucu, a saída dos animais não seria espontânea. Assim, na manhã deste sábado, depois de muita discussão sobre o melhor procedimento a ser adotado, funcionários do Mamirauá começaram a conduzir a passagem de uma rede pela enseada, de modo a empurrar os botos até a saída.

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