UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
Vírus zumbis estão acordando após 50 mil anos por causa da mudança climática

17/10/2023

Passar duas semanas acampando nas margens lamacentas e infestadas de mosquitos do rio Kolyma, na Rússia, pode não parecer a viagem de trabalho mais glamorosa. Mas é um sacrifício que o virologista Jean-Michel Claverie estava disposto a fazer para descobrir a verdade sobre os vírus zumbis —mais um risco que a mudança climática representa para a saúde pública.
Suas descobertas revelam uma realidade sombria do aquecimento global à medida que descongela o solo que estava congelado por milênios. Claverie, 73, passou mais de uma década estudando "vírus gigantes", incluindo aqueles com quase 50 mil anos encontrados nas camadas profundas do permafrost siberiano.
Com o planeta já 1,2°C mais quente do que nos tempos pré-industriais, os cientistas preveem que o Ártico poderá ficar livre de gelo no verão até a década de 2030. Preocupações de que o clima mais quente liberará gases de efeito estufa presos, como o metano, na atmosfera à medida que o permafrost da região derrete, têm sido bem documentadas, mas os patógenos dormentes são um perigo menos explorado.
No ano passado, a equipe de Claverie publicou pesquisas mostrando que eles extraíram múltiplos vírus antigos do permafrost siberiano, todos os quais permaneceram infecciosos.
"Com a mudança climática, estamos acostumados a pensar nos perigos vindos do sul", disse Claverie em uma entrevista em seu laboratório no campus Luminy da Universidade de Aix-Marseille, na França, referindo-se à disseminação de doenças transmitidas por vetores de regiões tropicais mais quentes.
"Agora, percebemos que pode haver algum perigo vindo do norte, à medida que o permafrost descongela e libera micróbios, bactérias e vírus."
Formas pelas quais isso pode representar uma ameaça ainda estão surgindo. Uma onda de calor na Sibéria no verão de 2016 ativou esporos de antraz, levando a dezenas de infecções, matando uma criança e milhares de renas.
Em julho deste ano, uma equipe separada de cientistas publicou descobertas mostrando que até mesmo organismos multicelulares poderiam sobreviver às condições do permafrost em um estado metabólico inativo, chamado criptobiose. Eles conseguiram reanimar uma lombriga de 46 mil anos do permafrost siberiano, apenas reidratando-a.
"É fundamental do ponto de vista de que podemos interromper a vida e depois reiniciá-la", diz Teymuras Kurzchalia, professor emérito do Instituto Max Planck de Biologia Celular e Genética Molecular, que esteve envolvido no estudo. "Isso significa que é inato para alguns organismos vivos diminuir ou suspender de alguma forma os processos metabólicos."
Por anos, agências de saúde globais e governos têm monitorado doenças infecciosas desconhecidas contra as quais os humanos não teriam imunidade nem terapias medicamentosas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2017 adicionou uma "Doença X" genérica a uma lista restrita de patógenos considerados de alta prioridade para pesquisa e para os quais visa desenvolver um plano de ação para prevenir ou conter uma epidemia. Desde que a pandemia de Covid-19 fechou o mundo por meses, os esforços só se intensificaram.
"A OMS trabalha com mais de 300 cientistas para analisar as evidências de todas as famílias de vírus e bactérias que podem causar epidemias e pandemias, incluindo aquelas que podem ser liberadas com o descongelamento do permafrost", disse a porta-voz da OMS, Margaret Harris.
Embora em grande parte não relacionada, a pesquisa de Claverie ocupa uma fronteira semelhante. Escondido na base de um penhasco rochoso nos arredores de Marselha, na França, as prateleiras em seu complexo de laboratórios à primeira vista têm a sensação de uma loja de curiosidades ou a casa de um colecionador excêntrico.
Garrafas plásticas de amostras de solo e frascos de vidro com líquidos marrons indescritíveis disputam espaço, enquanto o escritório de Claverie exibe uma vértebra de rinoceronte lanudo e os restos de uma presa de mamute que sua equipe encontrou em uma expedição à Sibéria em 2019. Máquinas caras e uma sala de biossegurança dentro do complexo, por outro lado, indicam que isso está longe de ser um passatempo frívolo.

Termine de ler esta matéria clicando na Folha de S. Paulo

Novidades

Rio lança Dia da Praia inédito no mundo e faz mutirão gigante com limpeza em 60 pontos da orla

30/06/2026

O Rio de Janeiro vai celebrar nesta terça-feira (30) o primeiro Dia da Praia, data criada por lei mu...

Céu absurdamente estrelado é registrado em parque no Rio

30/06/2026

A foto acima foi feita pelo biólogo Samir Mansur, no último dia 20, no topo da montanha mais alta do...

Inspirado no Super Trunfo, jogo de cartas revela frutas amazônicas

30/06/2026

A gamificação, ou “tornar em jogo”, é uma poderosa ferramenta de aprendizagem que, ao abordar temas ...

El Niño ameaça SP com caos climático ao unir fogo, temporal e seca

30/06/2026

A chuva acima da média em São Paulo neste início de inverno, contrariando a expectativa de uma estaç...

Caverna no Paraná revela influência da Antártida e do El Niño em chuvas extremas no Sul do Brasil

30/06/2026

Uma caverna no interior do Paraná guarda um "arquivo climático" que permitiu a pesquisadores brasile...

O desafio (e o risco) de comprovar o plástico reciclado na embalagem

30/06/2026

O mercado de embalagens plásticas no Brasil está passando por uma virada de chave silenciosa, mas gi...