
31/08/2023
Para o professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Adacto Ottoni, são as deficiências na fiscalização e no licenciamento que permitem danos como o provocado pelo despejo de surfactante nas águas do rio Guandu. A consequência foi a suspenção por 14 horas, da captação de água na estação de tratamento da Cedae, prejudicando o abastecimento de 11 milhões de pessoas.
— Não é com visitas que se conseguirá saber o que está ocorrendo porque, na hora que as empresas coletam amostras para o órgão ambiental, elas, por exemplo, põem suas estações de tratamento de esgoto para funcionar dentro de todas as normas — diz o especialista. — Enquanto as empresas não forem obrigadas a pôr sensores para medir aspectos como pH e condutividade na entrada e na saída de suas estações de esgoto, seja sanitário ou industrial, haverá problemas assim.
Não é a primeira vez, lembra ele, que o aparecimento de espuma de detergentes prejudica o Guandu. Por si só, elas já poderiam ser prejudiciais ao meio ambiente e à saúde da população. Mas o professor ressalta agravantes:
— São detergentes não biodegradáveis, por isso geram essa espuma difícil de ser eliminada. E podem carregar uma porção de produtos químicos, alguns com toxidez, que dependem da indústria e para que esse detergente foi usado.
Dias antes de um composto presente em detergentes provocar o fechamento da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guandu, um morador da Baixada fez uma denúncia anônima ao Ministério Público do Rio (MPRJ) contra a Burn Indústria e Comércio Ltda, que fica no Distrito Industrial de Queimados, e enviou fotos de uma espuma branca em uma galeria pluvial e em ruas da região.
Documentos aos que O GLOBO teve acesso mostram que, em 11 de agosto, a 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Meio Ambiente, em Nova Iguaçu, instaurou então um inquérito civil contra a empresa, inicialmente para apurar o lançamento de água de lavagem de silos de estocagem diretamente no esgoto. Segundo a promotora Patrícia Gabai Venancio, em dias de chuva, as ruas do entorno ficavam tomadas de espuma.
Nesta terça-feira, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e a Polícia Civil responsabilizaram a mesma Burn pelo despejo do material que, no dia anterior, havia provocado a espuma no Guandu e paralisado o abastecimento. A empresa foi embargada pela Secretaria municipal de Meio Ambiente de Queimados. E, segundo o Inea, após análise laboratorial, recebeu um auto de infração no valor de R$ 10.734.862,98 "pelo lançamento de substância surfactante na galeria de águas pluviais, contribuindo para a formação de espuma constatada no Rio Guandu".
Em Queimados, que não tem tratamento de esgoto doméstico, segundo dados do Instituto Trata Brasil referentes a 2021, moradores das imediações do Distrito Industrial, no bairro Campo Alegre, afirmam que os dois rios próximos, o Queimados e dos Poços, teriam sido atingidos pela espuma que pararia no Guandu na madrugada da última segunda-feira. Ali, repetem-se reclamações de mau cheiro e lançamento de detritos, inclusive industriais, nas águas.
— Antigamente as pessoas pescavam nesses rios. Tínhamos uma variedade de vegetação que não existe mais. Aos poucos, os rios foram sendo poluídos e tudo foi se perdendo. Quando chove, nossas casas ficam alagadas, e a espuma toma conta das ruas — lamentou um morador que preferiu não se identificar.
No centro das denúncias atuais, a Burn reiterou ontem não ter relação com nenhum dos episódios. Em nota, a empresa disse receber “com surpresa e indignação as recentes manifestações de órgãos ambientais e de controle”. E afirma já ter solicitado uma contraprova a um laboratório especializado, ao frisar que opera “com tecnologia de ponta e de padrão internacional”.
De forma cautelar, a prefeitura de Queimados informa que embargou a atividade da empresa. Sobre o incidente de segunda-feira, o MPRJ afirma que aguarda os “órgãos de controle encaminharem os relatórios para analisar e, se for o caso, adotar as providências cabíveis”.
Fonte: O Globo
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