
04/04/2023
Visto do espaço à noite, o Parque Estadual do Desengano (PED), no Norte Fluminense, é uma mancha escura. Mas, nessa terra mergulhada em treva, há luz. Não a da iluminação elétrica artificial. E, sim, a que impera acima de tudo: a do Universo. Milhares de estrelas e outros astros invisíveis nas cidades, ocultos pela poluição luminosa, proporcionam lá um espetáculo noturno. Graças a isso, este é o primeiro e único Dark Sky Park (em português, um “parque escuro”) da América Latina.
Domingo passado, enquanto uma tempestade despejava chuva e raios em Campos dos Goytacazes e São Fidélis, no alto da Serra do Desengano o céu aberto era das estrelas, soberanas sobre o mau tempo.
A Cabeleira de Berenice espalhava suas vastas mechas estelares pelo espaço. O nome da constelação remete à lenda da rainha egípcia Berenice, que ofereceu os longos cabelos à deusa Afrodite em troca da vida do marido.
Berenice não brilha sozinha onde a noite ainda é a mesma que gerou mitologias, instigou a imaginação, inspirou poesia e fez florescer romances desde os primórdios da Humanidade.
Lugar tem um dos céus mais escuros do Brasil e é o primeiro da América Latina a conseguir o título internacional de Dark Sky Park
Nas montanhas acima da tempestade do domingo passado, por exemplo, toda a faixa da Via Láctea entre as constelações do Cão Maior e do Centauro estava visível a olho nu, assim como grupos de estrelas mais tênues, tais como o Presépio, a Caixa de Joias, as Plêiades do Sul e o Poço dos Desejos, além de Berenice.
Visibilidade a olho nu também há para a galáxia Grande Nuvem de Magalhães e a Nebulosa da Carina, afirma Daniel Mello, astrônomo do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto “Astroturismo nos Parques Brasileiros”, pioneiro no estudo das unidades de conservação para o turismo de observação dos astros, medindo a qualidade do céu.
Habitantes de grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo conseguem ver apenas uma pequena parte das estrelas e dos demais astros visíveis no PED, uma unidade de conservação de 21.400 hectares, aproximadamente cinco vezes maior do que o Parque Nacional da Tijuca, que abrange áreas dos municípios de Santa Maria Madalena, São Fidélis e Campos dos Goytacazes.
— No Desengano vemos cerca de três mil estrelas durante o ano. Já no Rio ou em São Paulo apenas 150, sendo muito otimista. Ou seja, apenas 5% do céu estrelado que temos no Desengano — destaca Mello.
Constelações como Órion, o caçador, surgem em sua plenitude. Em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, de Órion só se enxergam as Três Marias, que compõem o chamado cinturão da constelação. O resto do caçador e seu arco só ficam visíveis em lugares escuros como o Desengano. Também é possível ver todo o Cruzeiro do Sul, mutilado nas cidades pelo excesso de iluminação.
O céu como o do Desengano já não existe para a maioria dos habitantes do planeta, pois estima-se que 80% das pessoas vivem em áreas de forte iluminação artificial, cuja luz bloqueia a observação do brilho do Universo, emitido por astros a anos-luz de distância (um ano-luz equivale a 9,46 trilhões de quilômetros).
— Vemos o mesmo céu que os primeiros humanos que chegaram ao que hoje é o Brasil, o céu dos indígenas. De certa forma, é uma viagem no tempo e na história — afirma Carlos Dário de Castro Moreira, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e gestor do PED quando a certificação de parque escuro foi concedida.
Dário é um dos idealizadores do projeto que levou o PED a receber o título de parque escuro, concedido pela International Dark-Sky Association (IDA, na sigla em inglês). A instituição trabalha para reduzir a poluição luminosa desde 1998 e já certificou 115 locais no mundo como parques escuros. Destes, apenas o PED fica na América Latina.
O título saiu em 2021, em plena pandemia de Covid-19, e só agora começa a atrair um número cada vez maior de astroturistas, gente que viaja para ver a noite em toda a sua glória.
O Desengano é favorecido por uma combinação de fatores, e seu grau de escuridão chega a 21,75 mag/arcsec2, uma medida que o qualifica como padrão ouro, próximo do máximo de 22 estabelecido pela IDA. Essa medida indica que a Via Láctea é claramente visível e o céu, repleto de luz e cor.
De início, a escuridão incomoda os olhos de quem vive nas cidades. A toda volta, há apenas o nada, a treva, que quase sufoca. Sensação que dura instantes e desaparece quando se volta a cabeça para cima.
O observador se depara com azuis, lilases, dourados, rosas e vermelhos em astros que pulsam e deixam rastros luminosos, a poeira celestial. Vê-se, por exemplo, a supergigante vermelha Betelgeuse, um dos destaques de Órion. Betelgeuse é uma estrela velha que definha em explosões douradas.
A geografia ajuda. O parque se estende por montanhas, vales, florestas e campos. A altitude varia entre 600 e 1.671 metros (altura do Pico do Desengano) e o entorno da unidade de conservação é praticamente desabitado, diz Moreira.
As montanhas formam uma espécie de escudo, que protege o parque da luz das cidades. Além disso, a serra com o nome do parque é o maior trecho contínuo de Mata Atlântica do Norte Fluminense.
Fundamental é o fato de não haver qualquer iluminação artificial — apenas na sede há luz adaptada ao protocolo da IDA.
Somado a isso, a cidade mais próxima, Santa Maria Madalena, tem pouco mais de 10 mil habitantes e adaptou a iluminação pública ao protocolo da IDA.
Mello acrescenta que, além de ser mais escuro, o céu em unidades de conservação tende a ter condições atmosféricas melhores e menos fuligem. O resultado é uma abóbada celeste mais transparente.
— O Desengano dá esperança de desenvolvimento sustentável para uma região pobre e mostra o potencial de geração de renda das unidades de conservação — enfatiza Moreira.
O título de Dark Sky Park é, sobretudo, resultado do compromisso de proteger o céu e manter a unidade de conservação em perpétua escuridão, explica o astrofísico Marcelo de Oliveira Souza, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Foi Souza quem primeiro teve a ideia de propor a transformação do PED em parque escuro.
A ideia foi prontamente abraçada por Moreira. O projeto é deles em parceria com João Rafael Marins e Samir Mansur, ambos do Inea. Juntos, eles conseguiram a aprovação e o apoio do Instituto Estadual do Ambiente e das prefeituras, e montaram o projeto que foi aceito e certificado pela IDA.
— Um parque desses não é feito só de estrelas e escuridão. É preciso compromisso das autoridades de que as condições atuais serão mantidas para sempre, em benefício das gerações futuras e do patrimônio da Humanidade — frisa Souza, que há três décadas se dedica à conscientização sobre os danos da poluição luminosa.
Outros lugares no Brasil poderiam ser parques escuros. Mello e Souza dizem que há vastos pontos de escuridão noturna no país. Especialmente boas para a contemplação celeste, por exemplo, são as vastidões do Brasil Central. Lá, o ar mais seco favorece a observação. A imensidão da Amazônia é quase toda escura, mas muito mais enevoada e chuvosa.
— Há luz, esperança e sustentabilidade em proteger o céu e preservar a noite — diz Moreira.
Fonte: O Globo
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