
28/02/2023
Em pouco mais de duas semanas, o desmatamento na Amazônia já bateu o recorde para o mês de fevereiro desde o início da série histórica, em 2015. Até o dia 17, foram perdidos 208,7 km² de floresta, uma área equivalente à cidade de João Pessoa (211 km²).
Os alertas foram divulgados nesta sexta-feira (24) pelo Deter, sistema do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que reúne informações para o combate ao desmatamento em tempo real. Os dados referentes ao total do mês de fevereiro devem ser divulgados em duas semanas.
Até então, o número de desmate mais alto para fevereiro tinha sido registrado no ano passado, com 198,6 km² de floresta perdida.
Considerando os dados parciais, a maior parte da destruição no mês está concentrada em Mato Grosso (129,4 km²). Em seguida vêm Pará (33,9 km²) e Amazonas (23,1 km²).
O início do ano é chuvoso na região, o que dificulta a derrubada da vegetação e leva a números mais baixos no desmate, na comparação com outras épocas.
"Esse desmatamento ameaça não só a biodiversidade da região, como todo o nosso regime de chuva e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Nós já sabemos como parar esse desmatamento e é fundamental que comecemos a controlar esse avanço da destruição", afirma Paulo Moutinho, diretor executivo substituto do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em comunicado à imprensa.
O recorde atual vem após uma queda de 61% que tinha sido registrada em janeiro, na comparação com 2022. À época, especialistas ponderaram que, ainda que fosse uma boa notícia, a redução deveria ser vista com cautela, já que o mês tinha tido alto índice de cobertura de nuvens na região, o que dificulta o monitoramento por imagens de satélite.
Com isso, aponta Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, é possível que esses dados de fevereiro representem áreas que já estavam desmatadas em janeiro, mas ficaram encobertas pelas nuvens.
Pela forma como é elaborado e prevendo esse tipo de variação, o dado do Deter é usado para analisar tendências, que são consolidadas a cada três meses. Ou seja, os números que darão um diagnóstico mais sólido sobre o começo deste ano devem sair apenas ao final do primeiro trimestre.
Desde o início de 2023, o Deter já apontou 375,3 km² desmatados na Amazônia, o que representa uma queda de 29,5% em relação ao mesmo período do ano passado, em que a área destruída foi de 532,6 km².
Questionado sobre os índices, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) disse, em nota, que o objetivo do Deter é "fornecer informações de suporte às atividades fiscalização e controle do desmatamento e da degradação florestal".
O instituto também afirmou que o site do Inpe diz que as informações produzidas pelo sistema "não devem ser compreendidas como taxas mensais de desmatamento" e que a cobertura de nuvens deve ser levada em conta ao fazer comparações entre diferentes meses e anos.
O Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima também foi procurado, mas não respondeu.
Estes são os primeiros índices do novo governo federal, que vem concentrando ações na região amazônica no combate à crise humanitária dos yanomamis e ao garimpo ilegal.
"Não era possível que o governo já tivesse reflexos das suas ações para o mês de janeiro de forma tão contundente. Nós vamos ver esses números daqui um tempo, em mais dois ou três meses vamos começar a ver se a curva de diminuição ou de manutenção [do desmatamento] é consistente", diz Astrini.
"A ação do governo na Terra Indígena Yanomami é também importantíssima porque tem uma repercussão de mensagem para muito além daquele território. Você está vendo ali que o governo, agora, está indo para cima dos criminosos", acrescenta.
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