
28/02/2023
Na segunda-feira dia 20 de fevereiro, em um terreno baixo no cinturão de pinheiros no sul da Geórgia, meia dúzia de trabalhadores plantou fileiras e mais fileiras de choupos parecendo apenas galhos.
Não eram quaisquer árvores, porém: algumas das mudas colocadas no solo encharcado foram geneticamente modificadas para produzir madeira em taxas turbinadas enquanto sugam o dióxido de carbono do ar.
Os choupos podem ser as primeiras árvores geneticamente modificadas plantadas nos Estados Unidos fora de um ensaio de pesquisa ou de um viveiro comercial. Assim como a introdução do tomate Flavr Savr em 1994 lançou uma nova indústria de culturas alimentares geneticamente modificadas, os plantadores de árvores esperam transformar a silvicultura.
A Living Carbon, empresa de biotecnologia sediada em San Francisco que produziu as mudas, pretende que seus choupos sejam uma solução em larga escala para a mudança climática.
"Algumas pessoas nos disseram que é impossível", disse Maddie Hall, cofundadora e CEO da empresa, sobre seu sonho de utilizar engenharia genética para melhorar o clima. Mas ela e seus colegas também encontraram crentes suficientes para investir US$ 36 milhões na empresa de quatro anos.
A companhia também atraiu críticos. O grupo ambientalista Global Justice Ecology Project chamou as árvores da empresa de "ameaças crescentes" às florestas e expressou preocupação pelo fato de o governo federal permitir que a empresa burle a regulamentação, abrindo as portas para plantações comerciais muito mais cedo do que o normal para plantas modificadas.
A Living Carbon ainda não publicou artigos revisados por pares; seus únicos resultados divulgados vêm de um teste em estufa que durou apenas alguns meses. Esses dados deixaram alguns especialistas intrigados, mas pararam antes de um endosso total.
"Eles têm alguns resultados encorajadores", disse Donald Ort, geneticista da Universidade de Illinois cujos experimentos com plantas ajudaram a inspirar a tecnologia da Living Carbon. Mas ele acrescentou que a ideia de que os resultados em estufa se traduzirão em sucesso no mundo real não é garantida.
Os choupos da Living Carbon começam suas vidas em um laboratório em Hayward, na Califórnia. Lá, biólogos estudam como as árvores realizam a fotossíntese, a série de reações químicas que as plantas usam para transformar a luz do sol, a água e o dióxido de carbono em açúcares e amidos.
Ao fazer isso, elas seguem um precedente definido pela evolução: várias vezes ao longo da história da Terra, aperfeiçoamentos na fotossíntese permitiram que as plantas ingerissem dióxido de carbono suficiente para resfriar substancialmente o planeta.
Embora a fotossíntese tenha impactos profundos na Terra, como processo químico ela está longe de ser perfeita. Numerosas ineficácias impedem que as plantas captem e armazenem mais que uma pequena fração da energia solar que cai sobre suas folhas. Essas ineficiências, entre outros fatores, limitam a rapidez com que árvores e outras plantas crescem e a quantidade de dióxido de carbono que absorvem.
Cientistas passaram décadas tentando continuar de onde a evolução parou. Em 2019, Ort e seus colegas anunciaram que haviam modificado geneticamente plantas de tabaco para fotossintetizar com mais eficiência. Normalmente, a fotossíntese gera um subproduto tóxico que a planta precisa descartar, desperdiçando energia. Os pesquisadores de Illinois adicionaram genes de abóboras e algas verdes para induzir as mudas de tabaco a reciclar as toxinas em mais açúcares, produzindo plantas que cresceram quase 40% a mais.
Naquele mesmo ano, Hall, que trabalhava para empreendimentos do Vale do Silício como a OpenAI (responsável pelo modelo de linguagem ChatGPT), conheceu seu futuro cofundador, Patrick Mellor, numa conferência de tecnologia climática. Mellor estava pesquisando se as árvores poderiam ser modificadas para produzir madeira resistente ao apodrecimento.
Com o dinheiro arrecadado de empresas de capital de risco e contatos de Hall no mundo da tecnologia, incluindo o CEO da OpenAI, Sam Altman, ela e Mellor fundaram a Living Carbon, na tentativa de aperfeiçoar árvores para combater as mudanças climáticas.
"Poucas empresas estavam avaliando a remoção de carbono em larga escala de uma forma que combinasse ciência de ponta e implantação comercial em larga escala", disse Hall.
Em um campo acostumado ao progresso lento e à regulamentação pesada, a Living Carbon moveu-se com rapidez e liberdade. Os choupos modificados com armas genéticas evitaram uma série de regulamentações federais sobre organismos geneticamente modificados que podem paralisar projetos de biotecnologia durante anos. (Desde então, esses regulamentos foram revisados.)
Em comparação, uma equipe de cientistas que projetou geneticamente uma castanheira resistente à ferrugem usando o mesmo método de bactéria empregado antes pela Living Carbon aguarda uma decisão desde 2020. Uma maçã modificada cultivada em pequena escala no estado de Washington levou vários anos para ser aprovada.
Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo
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