
16/02/2023
Estudar a vida nos oceanos no Ártico e na Antártida é uma tarefa difícil, que envolve muita dedicação e amor aos oceanos. Mares profundos, frio extremo e superfície coberta por espessas camadas de gelo são uma paisagem desafiadora. Neste cenário, os sons podem ser uma ferramenta poderosa para compreender a vida marinha polar, ajudando a avaliar a saúde das populações, padrões migratórios, hábitos de reprodução e até os impactos das atividades humanas nesses habitats.
Desta ideia nasceu o projeto ‘Polar Sounds’, ou Sons Polares, em português. A iniciativa veio de um grupo de pesquisadores do Instituto Helmholtz para a Biodiversidade Marinha Funcional (HIFMB), da Universidade de Oldenburg, na Alemanha. O objetivo era mobilizar músicos de vários pontos do planeta para criarem composições com base em sons gravados nos mundos marinhos gelados dos polos Norte e Sul, dando uma nova leitura para estes registros acústicos.
O resultado são composições sonoras de quase 300 artistas de 45 países, criadas a partir de 50 gravações de sons biológicos, produzidos por animais marinhos, de sons geológicos, produzidos pelo degelo e movimento dos glaciares, e de sons antropogénicos, fruto da atividade humana nessas regiões geladas do globo e que ajudam a perceber nosso impacto nesses lugares remotos.
O pesquisador Geraint Rhys Whittaker, coordenador do ‘Polar Sounds’, explica que o projeto partiu de duas simples perguntas: “O que podemos fazer com estes dados além de analisá-los cientificamente? Como podemos partilhar estes sons únicos com o resto do mundo?”.
O cientista recorda que até 2030 decorre a Década dos Oceanos, parte da Agenda do Desenvolvimento Sustentável, que tem como objetivo transformar a forma como nos relacionamos com as grandes massas de água que cobrem o nosso planeta, tornando-os mais saudáveis, mais resilientes, mais produtivos e acessíveis por todos.
Um dos principais eixos dessa estratégia é a promoção de soluções inovadoras que ajudem a proteger os oceanos, e é por isso que Geraint Rhys Whittaker afirma que “é imperativo que tornemos pesquisas importantes sobre os nossos oceanos acessíveis ao público em geral”. O especialista diz que os sons produzidos nesta colaboração entre Arte e Ciência “criam uma ligação intuitiva entre nós humanos e o oceano”.
Ilse van Opzeeland, do Alfred Wegener Institute e que também participou no projeto, aponta que os sons recolhidos nos oceanos polares “são de tirar a respiração em termos do conhecimento científico que fornecem” e que “uma ‘tradução’ por meio da arte traz uma nova vida a estes registros” que vai além dos tradicionais artigos publicados em revistas científicas.
“Temos de fazer todos os esforços para proteger, conservar e restaurar os habitats ameaçados dos nosso planeta. A interação da Arte e da Ciência pode ajudar a sensibilizar e a chamar a atenção para isso”, observa Ilse van Opzeeland.
Os cientistas acreditam que, através da Arte, é possível abrir novas vias de diálogo entre essas duas grandes disciplinas, ajudando a trazer à tona novas perspectivas sobre a Natureza e sobre todas as formas de vida que habitam nas águas marinhas geladas.
As composições de 104 dos artistas que participaram no projeto já estão disponíveis no CicloVivo
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