
10/01/2023
O plano nacional de controle do javali (Sus scrofa L.) venceu na virada do ano, e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ainda não anunciou quais medidas serão tomadas.
Dados sobre a ocorrência de javalis e javaporcos (cruzamento com o suíno doméstico) pelo país não são atualizados no Simaf (Sistema de Informação de Manejo de Fauna) desde agosto de 2021, quando foi publicado o último boletim informativo. Enquanto faltam números oficiais, no entanto, sobram relatos de avistamento do porco selvagem, nativo da Ásia, da Europa e do norte da África, e de estragos em lavouras.
Levantamento recente de um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros apontou que a presença do animal triplicou nos últimos dez anos, atingindo estados livres da invasão até então, como Pará e Pernambuco. Conforme o estudo, 1.152 municípios reportaram avistamentos em 2022, com destaque para as regiões Sul e Sudeste. Em 2012, há dez anos, eram 370 municípios.
No país, a disseminação acelerada da espécie acontece desde o início da década de 1990. O biólogo Carlos Salvador, um dos pesquisadores responsáveis pelo levantamento, lembra que, embora a caça esportiva seja proibida no Brasil, há uma exceção para o abate do javali, autorizado pelo Ibama desde 2013 para o controle da espécie.
Na visão dele, porém, ironicamente, isso vem contribuindo para a difusão do javali, pelo interesse de locais que exploram a caça esportiva. O transporte do animal vivo entre diferentes estados com a intenção de manter populações ao redor para caça recreativa agrava o problema, ele avalia.
"Hoje as coisas estão muito misturadas. Ficou difícil diferenciar caça de abate da esportiva. Existem pessoas que atrelam o pedido da autorização de controle à prática do esporte. Na interpretação deste grupo, o governo liberou geral", diz.
Com a prescrição do plano nacional, em 31 de dezembro, embora o abate continue autorizado pelo Ibama, o país fica em um limbo nas práticas de controle. O instrumento organizava mais de 70 ações, com prazos para execução e custos definidos, distribuindo tarefas entre representantes de órgãos públicos federais e estaduais, universidades, sociedade civil e o setor rural. Sem o documento, portanto, o tema fica desorganizado no país.
Considerada uma das cem piores espécies invasoras do mundo, o javali também beneficia-se do baixo número de predadores na natureza.
"Mais carnívoros nativos de grande porte, como onças, ajudariam bastante", explica Salvador, que atuou como consultor do plano federal de manejo.
Fortes e resilientes, os bandos circulam livres por mosaicos agrícolas em busca de grãos, raízes, legumes e tubérculos, danificando lavouras. Milho é um dos alimentos favoritos.
No povoado de Criúva, na serra gaúcha, agricultores que atuam como controladores nas horas livres perderam plantações de milho —e até bezerros— nos ataques.
"O javali é o novo rei da selva e não vemos mais luz no fim do túnel. Além disso, os controladores estão caçando menos por falta de tempo e por conta dos custos dos equipamentos, como as munições. A gente tem que arcar com tudo", reclama Fernando Giordani, produtor que perdeu dois hectares de milho durante uma invasão no seu sítio.
Além das perdas agrícolas, o javali representa risco sanitário à suinocultura, já que pode carregar patógenos, como vírus, e transmiti-los aos porcos domésticos, criados em granjas. As pestes suínas (clássica e africana), doença de Aujeszky (pseudoraiva), febre aftosa e brucelose são algumas das patologias com potencial de dizimar plantéis caso haja contato entre uma espécie selvagem contaminada e o porco comercial.
A disseminação descontrolada também representa ameaça à saúde pública. O contato com o sangue no abate ou a ingestão da carne do animal não inspeccionado podem transmitir zoonoses aos humanos.
Termine de ler esta matéria acessando a Folha de S. Paulo
Tecnologia que ajudou a recuperar praias da Zona Sul chega à Ilha do Governador
07/07/2026
Tremores de terra são registrados no litoral de Maricá
07/07/2026
USP transforma resíduos em energia, biometano e biofertilizante
07/07/2026
Sistema Cantareira passa a operar na faixa de alerta
07/07/2026
DNA da água em rio do ES ajuda cientistas a encontrar peixe ameaçado de extinção
07/07/2026
Natura cria startup para vender ingredientes da amazônia a outras indústrias
07/07/2026
