UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
Comunidades tradicionais ´invisíveis´ e ameaçadas pelo avanço do agronegócio são colocadas no mapa

05/01/2023

Na frente da casa onde mora na comunidade Cacimbinha, no oeste da Bahia, a líder comunitária Lusineide Gomes, 26, apresenta o semblante sério no início de uma conversa sobre as condições de vida na região.
A expressão, porém, logo muda ao ouvir a pergunta: "O que é ser geraizeira para você?". Sorrindo, ela responde sem precisar pensar muito. "Geraizeiro é tudo, né? É um lugar que a gente vive tranquilo, vive a nossa vida."
Mais do que uma explicação sobre o nome dado aos moradores das comunidades da região —por ocuparem as Gerais, uma das formas como é chamado o cerrado—, a resposta reflete um desejo: de que essa tranquilidade se mantenha.
Desde o início dos anos 2000, o acelerado processo de desmatamento do cerrado, que ameaça a oferta de água e a geração de energia no país, coloca em risco também a existência dessas pequenas comunidades tradicionais, que, na maioria dos casos, nem sequer foram reconhecidas como tais.
É o oposto do que seria uma vida tranquila para Lusineide e seus vizinhos.
"[Vida tranquila] é viver somente do cerrado, do que a gente planta e colhe, mas é um plantio que a gente tem as formas de plantar e colher que não agridem a natureza, e é isso. O cerrado é uma forma de resistência, porque daqui a gente tira o nosso sustento", diz ela, vestindo camiseta estampada com os dizeres "somos todos cerrativistas".
Diante do avanço do agronegócio pela região conhecida como Matopiba (polígono que abrange parte dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), muitas dessas comunidades se viram, de repente, no meio de conflitos de terra e vêm perdendo seus territórios —por expulsão ou abandono— e sua própria identidade.
O Matopiba respondeu por 56% de toda a perda de vegetação nativa observada no cerrado nos últimos 20 anos. E por 72,5% do que foi perdido no bioma somente em 2021, de acordo com levantamento do MapBiomas.
A cidade campeã de desmatamento do cerrado é justamente Formosa do Rio Preto (BA), onde está Cacimbinha. O intenso avanço da motosserra contou, pelo menos desde 2013, com a conivência de magistrados do Tribunal de Justiça da Bahia, advogados e grileiros para agilizar as fraudes.
O esquema de grilagem abrangeu uma área de mais de 360 mil hectares no município e só foi desmantelada em 2019 pelo Ministério Público Federal na Operação Faroeste. No "Atlas de Clima e Corrupção", divulgado em novembro pela Transparência Internacional - Brasil, o caso foi descrito entre 15 práticas de corrupção que têm prejudicado a maneira como o Brasil enfrenta as mudanças climáticas.
A "compra de decisões judiciais levou à legitimação de fraudes em registros imobiliários e à grilagem de terras associada ao desmatamento", aponta a Transparência.
"O esquema de grilagem exposto pela Operação Faroeste não é um caso isolado na região. No oeste da Bahia, foram registrados diversos outros casos de grilagem envolvendo desmatamento, conflitos fundiários e violação de direitos de comunidades tradicionais. Esse caos fundiário também tem levado a impactos socioambientais dramáticos", continua o documento.
Para Lusineide, o impacto mais sentido foi na qualidade da água. Segundo ela, pesquisas já atestam que o rio está contaminado por agrotóxicos e pela erosão. No processo de desmatamento, também foram ao chão alguns buritis, alterando as veredas de onde os moradores extraíam o capim dourado, matéria-prima para artesanatos, como bolsas e bijuterias.

Termine de ler esta matéria acessando a Folha de S. Paulo

Novidades

Tecnologia que ajudou a recuperar praias da Zona Sul chega à Ilha do Governador

07/07/2026

A Ilha do Governador inaugura nesta sexta-feira o primeiro Coletor em Tempo Seco (CTS) da região, in...

Tremores de terra são registrados no litoral de Maricá

07/07/2026

Dois tremores de terra atingiram o litoral do estado do Rio de Janeiro, na altura de Maricá, no fim ...

USP transforma resíduos em energia, biometano e biofertilizante

07/07/2026

O Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP) acaba de inaugurar uma usin...

DNA da água em rio do ES ajuda cientistas a encontrar peixe ameaçado de extinção

07/07/2026

Um peixe de apenas cinco centímetros, ameaçado de extinção e encontrado unicamente no Espírito Santo...

Natura cria startup para vender ingredientes da amazônia a outras indústrias

07/07/2026

A Natura lançou uma startup dedicada a vender matérias-primas da amazônia a outras indústrias, em um...